Pensou que se o sono não chegasse logo, talvez até fosse melhor.
Concentrou-se no aconchego que quarto e cama lhe ofereciam e agradeceu a si mesmo haver chegado a esse estado tranquilo de não ter muito, mas onde esse não muito era o essencial.
Sua vida fora agitada, e a calmaria de agora era uma consequência, uma prova – permitiu-se – que depois da tempestade vem a bonança.
A bonança não era material, mas a sua satisfação em viver era plena, desfrutável e o obrigava, agora, a prestar atenção nela, a vida, coisa que quase nunca acontecera, pois a mesma quase sempre vivera por conta própria. Levou muito tempo vivendo sem perceber que nunca tivera, a rigor, um projeto de vida.
Não escondeu que estava rindo por dentro por permitir que um segundo provérbio lhe alcançasse o pensamento: antes tarde que nunca.
Exceto afetos e amizades, quase tudo era imediatista, como os livros que lia, os espetáculos e filmes a que assistia, um variado repertório de entretenimentos, mas nada dentro de algo predeterminado, percebia, agora, que sua vida assemelhava-se à de uma pessoa que entrava numa grande liquidação e optava levar o que estivesse mais à mão.
Os projetos, os sonhos já eram como nuvens que a realidade soprara. O existir não fora doloroso, mas pensava, agora, que se fosse, não teria sido melhor?
Gratificou-se com a ideia de que chegara a um ponto onde a vida se mostrava toda no ato de viver sem amargura, pelo contrário, agradecida por ele perceber, afinal, que ela, a vida, existia, independentemente de ser vista e avaliada.
Enquanto pensava naquela pequena tartaruga para a qual todo dia colocava alface e trocava a água de uma bacia que era o habitat dela, ouviu as 12 badaladas do relógio de parede.
Será que a tartaruga também pensa na vida dela? O que acha a tartaruga de sua própria solidão? A tartaruga aceita, mas acha o quê?
O relógio havia marcado meia-noite, e ele não achou ser cedo ou tarde. Já que estava conversando consigo mesmo, pelo menos não estava só.
Lembrou-se de uma antiga companheira que o definiu como um monge sem Deus.
Registrou mentalmente o que havia pensado e concluiu que estava vivendo uma vida sem futuro.
Daí o filósofo da madrugada sacou: viver feliz já não é aquilo que todo mundo pretende? Descobriu que realizava parte do futuro no presente.
Virou-se na cama, sorriu para um espelho imaginário e, com tranquilidade, deixou que o sono embalasse sua noite.
Sonhou?
Talvez. Quem sabe?
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Ao pé da coluna:
Um bom bordeaux – Mestre Mario. Tenho degustado cada coluna como um bom bordeaux. Sua capacidade de síntese beira o aforismo. Em não mais de duas linhas, nos faz viajar no tempo. Impressionante. Abraços. Carlos E. F. Cunha – Professor de Comunicação, Santo Amaro da Imperatriz, SC.
E-mail: Bom dia, Mario. Gostosa de ler tua coluna de hoje. Abraços. Coelho, empresário imobiliário, São Paulo.

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