Eu tinha quatro anos e enquanto minha mãe conversava com a diretora do Jardim da Infância, em Campinas, eu fugia pela janela. Escondi-me no porão de nossa casa.
Contava meu pai que, aos cinco anos, indo a primeira vez à praia, dei um berro, corri e me joguei no mar. Igualzinho a como me joguei na vida.
Quando, há 30 anos, coração oprimido, deixamos nossa filha Rachel no Jardim Escola Montessori da Barra, dei-me conta que jogamos ela na vida muito mais cedo. Doeu mais que ducha em água gelada.
Quando nos despedimos da Carla, no Aeroporto, para um intercâmbio de um ano em Michigan, a gente pagou para saber como é um ritual de separação. Custou muito caro.
Quando caiu meu primeiro dente de leite, joguei-o no telhado, como me ensinaram. Era para o definitivo crescer rápido.
O uniforme do primário na Caetano de Campos era calça curta azul-marinho, camisa branca com um ECC bordado no bolso do lado esquerdo e sapato com meia.
Bernardo Lorena, colega do primário, e eu fomos amigos 72 anos, até ele se despedir para sempre.
Ruth, nome de minha mãe, era também o da minha primeira professora.
Antes das canetas esferográficas, as carteiras escolares tinham tinteiros em seu lado direito superior.
A tinta era azul e quem não tinha mata-borrão assoprava a escrita.
A gente tinha o hábito de decorar o lado esquerdo dos cadernos, onde havia uma margem com uma linha vertical. Quase sempre com flores.
No tempo da minha alfabetização, a caneta usada era em duas partes: uma haste recebia uma pena removível que era vendida à parte.
Quem usava caneta-tinteiro, se fosse viajar de avião tinha que esvaziá-la da tinta, pois nas alturas a caneta expulsava a tinta e manchava a camisa.
A caneta-tinteiro “chique” era a Parker.
Em um Natal, ganhei da DPZ uma caríssima caneta Mon Blanc e agradeci: “Esta caneta fica reservada para recibos acima de cinco mil reais. Obrigado”.
Para exercício de redação (que se chamava Composição), os professores do primário tinham um enorme álbum de gravuras e uma delas, dependurada no quadro-negro, atendia ao propósito.
No ginásio, não havia gravuras, os temas eram determinados pelos professores com frases, como “água mole em pedra dura tanto bate que até fura”.
Quase sempre quando se desenhava uma casa, havia uma porta, duas janelas, uma chaminé soltando fumaça e um caminho que saía da porta.
Existe um lugar no Oriente onde o telhado de uma casa sobre uma cuia é o símbolo de paz. Acho que a casa e uma chaminé fumegante dizem a mesma coisa.
Os livros de literatura no ginásio, primeiramente chamados de florilégios e depois de antologias, traziam trechos de prosa de livros e poemas famosos.
Casimiro de Abreu, Bilac, Martins Fontes, Luis Guimarães Júnior, Raimundo Correia eram os poetas mais conhecidos e “recitados”.
Os versos mais famosos da minha infância talvez tenham sido de Casimiro de Abreu, Meus Oito Anos:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Os livros infantis mais lidos eram os do Monteiro Lobato e os adolescentes aprenderam no livro Poliana o “jogo do contente”.
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento… Manuel Bandeira
No meu primeiro alumbramento comemorei.
Para contrabalançar rápido um momento de muita saudade, basta-me lembrar as primeiras dores de dentes.
Confissões:
Fiz da vida pouco do que queria, mas ela meu deu algumas coisas melhores.
Se hoje sou feliz, agradeço e não suspiro pelo passado.
Quando suspiro por alguns lances do passado, não esqueço das vezes nas quais chorei.
Creio que a própria vida se encarrega de contrabalançar o bom e o mau.
Enquanto uns acham que a morte é ponto final, outros acham que é reticência…
Eu me achava um tolo, até que tive a certeza.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Ô Mario, que menino levado! Abração, Léo (Christiano) editor, Rio.
Ainda bem que não és candidato à Academia Brasileira de Letras, assim podes escrever maravilhosamente bem, à vontade. A gente partilha as emoções, de lembrança em lembrança. Vera Verissimo, psicóloga e tradutora, Porto Alegre.
Gostosíssimas lembranças dependuradas! Beijo, Gladys Fichbein, PortoAlegre.
Ao pé da coluna
Lembranças – “Querido Mario, sua última matéria trouxe-me uma das primeiras lembranças de minha infância. Morávamos mal em uma pensão no Leme por força de um decreto do Getúlio que obrigou súditos do eixo a residir à distância mínima de 500 metros do Palácio Guanabara, e meus pais tinham passaportes romenos (Em 1941, quando a Alemanha rompeu o pacto Hitler-Stalin e invadiu a União Soviética, a Romênia imediatamente aliou-se aos nazistas). Tivemos que sair às pressas do apartamento da Rua Paissandu. A lembrança: meu pai chegando do trabalho com o verde Diário da Noite nas mãos (até hoje não sei por que o papel do jornal era verde) gritando que a guerra tinha acabado. Era 1945, e eu tinha quatro anos. Abraço grande!” Joel Ghivelder, arquiteto, Rio.
Caríssimo Joel: não conhecia sua ascendência romena, mas o relato da ocupação nazista na Romênia foi dos mais pungentes romances a que li, anos 1950. Seu autor, Constantin Gheorghe Gheorghiu, expõe, a nu, a tragédia de um povo vítima da brutalidade e impiedade dos representantes de outros povos. Uma pergunta estupefata ficou impregnada na minha pele para sempre: a humanidade é isso? Abração. Mario

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