Me lembro que há por aí uma foto minha, de cachinhos, com quatro anos de idade, na Rua Barão de Jaguara, a principal de Campinas.
… que minha mãe contava que quando entrou na Faculdade de Farmácia e de Química, em São Paulo, ganhou dos veteranos uma boneca. Ela inda não tinha 14 anos.
… que na manhã em que meu irmão Eduardo nasceu me levaram para passear para não ver a cegonha… (a parteira chamava-se Ema).
… que com menos de cinco anos, na nossa casa em Campinas, eu vi meu avô materno morrer lendo o jornal.
… que aos seis anos meu playground em São Paulo era a Praça da República.
… que em São Paulo, na Avenida São João, defronte ao Edifício Martinelli, havia o Bar Automático, onde se colocava uma moeda que abria o vidro do salgado ou doce escolhido.
… que o bonde 29 era o Pinheiros.
… que os passes de bonde da Light em São Paulo eram moeda corrente.
… que os passes cor de tijolo valiam o dobro do passe escolar azul.
… que havia uma sorveteria, a Japonesa, onde o sorvete era em forma de sanduíche, o qual nunca mais vi em lugar algum.
… que na entrada dos circos sempre havia amendoim, pipoca e tremoço. Às vezes, algodão doce.
… que antes de ir para Cidade Jardim o hipódromo paulistano era no bairro da Mooca e que a gente podia, da Estação da Luz, ir de trem, logo ali.
… que o tordilho Goitacás ganhou, pagou 204 cruzeiros e eu acertei.
… que durante a guerra, no Brasil, os carros eram movidos a gasogênio.
… que na cidade de Jaú, numa casa de má fama, aos 15 anos, perdi minha virgindade total.
… que os prostíbulos tinham uma imagem ou estatueta de São Jorge a cavalo iluminada por uma vela ou uma pequena lamparina.
… que eu joguei basquete no tempo em que ainda era bola ao cesto.
… que no Grêmio Dois de Agosto, na Caetano, fui orador, diretor de imprensa, vice-presidente e presidente.
… que foi na Caetano de Campos que estreei como ator em Não consultes médico, de Machado de Assis.
… que assisti à estreia de Eva Wilma como atriz em Uma mulher e três palhaços, numa quadra de bola ao cesto, pelo Teatro de Arena.
… que no bar Términus, na Avenida Ipiranga, a gente pedia Zumbi e tomava absinto com suco de laranja.
… que na minha juventude paulistana não havia sinuca, só snooker.
… que houve uma época que minha mãe e o cachorro Bolinha no fim da tarde iam para o portão da nossa casa esperar meu pai.
… que foi numa loja da Ladeira Porto Geral que meu pai me comprou o primeiro traje de calça comprida.
… que meu primeiro mergulho na piscina do Pacaembu foi num clima de emoção.
… que em 1943, 44 e 45 vi o Leônidas da Silva, o Diamante Negro jogar pelo São Paulo.
… que Leônidas virou astro mundial na Copa de 1938 quando inventou a “bicicleta”.
… que João Saldanha e eu concordávamos que Leônidas foi o único jogador brasileiro no nível do Pelé.
… que junto com 19 colegas, em 1949, fomos de férias para Paquetá, quando e onde completei 18 anos.
… que meu amigo Bibi saiu de São Paulo para fazer o almoço comemorativo dos meus 18 anos.
… que nesta minha primeira visita, ao Rio, fui à Confeitaria Colombo.
… que ao lado do antigo restaurante Capela, na Lapa, Rio, havia uma porta, onde a gente matava a sede com Hidrolitol.
… que havia em Porto Alegre um sobrado tão estreito que na fachada só cabia a porta de entrada.
Impossível não lembrar da biblioteca infantil da Caetano; da Biblioteca Municipal e sua estátua; dos teatros Municipal, Alumínio, Arena, Cultura Artística; Leopoldo Fróes, Maria Della Costa, Oficina, Santana e TBC; do Cine Ipiranga onde se subia pelo elevador para o balcão nobre; do início das transmissões de TV; da minha primeira aparição na TV como rei de uma peça infantil.
Impossível esquecer da Yolanda e da sua loção Regina, da Aracy nua e que a vida me foi pródiga de amores.
Esqueci de quando aprendi que “segredo é pra quatro paredes”, mas nunca esqueci da lição…
Inté.
Vitrine (comentários sobre a crônica Inventário)
Bom dia Mario. Muito legal. Parabéns. Coelho, empresário imobiliário, São Paulo.
Inventário bem arrolado. Vera Verissimo, psicóloga, tradutora, Porto Alegre.
Mario, está ainda melhor do que a anterior. Mas não posso postar isso, né? Rodrigo Menezes, publicitário, São Paulo.
Eh Tio Mario… Esse seu inventário tá bonito. Vou fazer uma palestra sobre inventário de patrimônio cultural no mês que vem. Me deu o mote. Tem que se relacionar aquilo que importa. Bjão, Silvia (Wolff), arquiteta, São Paulo.
A vantagem de se fazer parte de um grupo: já que você se detém vendo formiguinhas, veja estas. (em anexo veio uma animação com formigas se defendendo em grupo) Muuuuiiitttoos beijinhos na família toda. Lia Moreira, publicitária, Teresópolis, RJ.
(“Estatuetas e outros prêmios não têm importância, como me ensinou o amigo-irmão Paulo José. Importante foram os motivos”). Importante foram os motivos: Absolutamente lapidar. Posso usar este motto? Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife
Prezado e querido Mario, sempre que recebo suas crônicas, um misto de alegria e felicidade tomam conta de mim. E, devido a correria que tem sido minha vida, fui adiando o momento de lhe escrever e falar de minha admiração. Admiração por sua vida tão lindamente vivida, por sua sensibilidade, por sua facilidade de colocar no papel o que traz no coração. Obrigada por não esquecer desta sua leitora. Abraços, com carinho, Mariza (G. Alves), professora, Rio.
Mario, estou com a alma em festa; no coração algo que não consigo definir, mas que fica entre orgulho, vaidade, amor, alegria e outros ingredientes que completam o amor perfeito: você é meu cunhado/irmão amado. Estou aí, neste mundo encantado do seu coração, “feliz da vida”! Sou sua cunhada/irmã. Lúcia (Aguiar), funcionária pública estadual, Fortaleza.
Querido Mario, que coisa linda o seu Inventário. Quisera ter talento para escrever coisas tão lindas. Também como você gosto muito das coisas sem valor que tenho e que são todo o valor que dou à vida. Também aprendi a valorizar as coisas simples e sinto um orgulho e uma vaidade imensa por ter descoberto, ainda cedo, que as melhores coisas da vida não têm preço: amizade, abraço, paz, sonho, amor, solidariedade, ternura. Aceite o meu abraço e a minha declaração aberta e rasgada da inveja enorme que sinto de você. Isnard Manso Vieira, jornalista e publicitário, Rio.
Ao pé da coluna:
Inventário amoroso? – “Amigo Mário: Este escrito vai para os Dez Mais!” José Antonio Moraes de Oliveira, jornalista, publicitário e colunista de Coletiva.net, Gramado, RS
Inventário de criatividade e de escrever bem – “Querido, adorei tudo, cada palavra, linha e frase. Nem sei qual delas me emocionou mais. Mas, com certeza, fiquei completamente envolvida pelo “amor de irmão não morre” (a mais pura verdade), pelo jeito que você descreve o amor pela sua dona e a memória com o nome das mulheres, moças e outras…abraços. Marcia Fernanda Peçanha Martins, jornalista, poetisa e colunista de Coletiva.net, Porto Alegre.
O jornalista José Antonio Vieira da Cunha, diretor de Coletiva.net, mandou-me: E antes que me esqueça: o texto está maravilhoso, bom Mario. Fiquei pensando cá com meus dois botões que daqui a pouco também deverei me dedicar a este exercício prazeroso. Abração. Vieira


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