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Teatro de Equipe liderou mobilização dos artistas

Transcrevo hoje uma reportagem realizada pelo jornal Sul21, com o título acima e a a seguinte linha de apoio: “Mario de Almeida conta como …

Transcrevo hoje uma reportagem realizada pelo jornal Sul21, com o título acima e a a seguinte linha de apoio: “Mario de Almeida conta como a classe artística atuou durante a Legalidade”.

O Teatro de Equipe marcou época pelo engajamento de seus integrantes, muitos deles, posteriormente, transformados em figuras da cena nacional, como Paulo José e Paulo César Pereio. O pequeno espaço da Rua General Vitorino, no Centro de Porto Alegre, destacou-se durante o movimento da Legalidade, em 1961, quando aderiram à causa destacados artistas e intelectuais gaúchos.

O Comitê de Artistas e Intelectuais Pró-Legalidade foi criado em 27 de agosto de 1961. “Me chamaram em casa às 8h30min dizendo que estavam instalando o Comitê”, lembra Mario de Almeida, em entrevista concedida por telefone ao Sul21. Juntamente com Paulo José, Pereio e Milton Mattos, ele foi um dos fundadores do Teatro de Equipe, em 1958. Desde então, vinham sendo encenadas peças com conteúdo crítico, e o lugar servia de ponto de encontro de artistas das mais variadas expressões.

O escritor Mario de Almeida era o único não gaúcho do grupo. Paulista, radicou-se em Porto Alegre quando o grupo decidiu fundar um teatro. Há muitos anos mora no Rio de Janeiro. No dia da renúncia de Jânio Quadros – recorda – já começou um movimento incomum na cidade. “Quando abriram o voluntariado no pavilhão do Mata-Borrão, Pereio me chamou e fomos até lá. A primeira pergunta que nos fizeram foi: vocês têm armas? Não tínhamos, mas mesmo assim nos inscrevemos”.

Mario diz que o Comitê dos Artistas, instalado logo em seguida, no Teatro de Equipe, tinha muitas funções práticas, pois era preciso produzir material de propaganda com o objetivo de mobilizar a população, já que os meios de comunicação de massa eram mais limitados. Seu contato no Palácio Piratini era Paulo Schilling, assessor econômico do governador Leonel Brizola, que pediu a colaboração dos artistas. Na prática, o Teatro funcionou como a agência de propaganda da Legalidade.

“Contávamos com muitos artistas gráficos voluntários. Assim, a partir de gravuras, era possível tirar 500 cópias de determinado material. Fazíamos braçadeiras de identificação do pessoal, cartazes, anúncios para jornal e outras peças. Com o trabalho de artistas do nível de Xico Stockinger, Fuhro e Dexhmeimer, que já conviviam conosco no Teatro”, diz Mario.

Ao instalarem o Comitê, os artistas e intelectuais usaram o rádio para fazer o chamamento de mais voluntários. Redigiram manifestos de repúdio ao golpe que queriam cometer contra a posse do vice-presidente João Goulart. Na passeata que realizaram nas ruas centrais, o escritor Dyonélio Machado (conhecido militante comunista) estava à frente dos manifestantes, carregando a bandeira nacional.

As tarefas iam aparecendo a todo instante. Mario de Almeida conta que a gasolina era racionada, mas os militantes precisavam se locomover, inclusive para abrir comitês nos bairros. “Então o pessoal ficava na rua, com uma borrachinha, pegando gasolina de cada automóvel que passava. Até que, quando vimos, havia um garrafão cheio no estoque”.

O Hino foi feito em um dia

O Hino da Legalidade, música que se tornou símbolo do movimento, foi criado muito rapidamente. Mario conta: “Paulo Schilling me chamou para ir ao Palácio. Fui com o motociclista que servia de meu ‘motorista’ e, lá chegando, ele me disse que o comandante (como Brizola era chamado) gostaria de ter um hino. A ideia era formar uma mística em torno da Legalidade. Por telefone, contatamos a poetisa Lara de Lemos e o Pereio, e eles fizeram o hino. Faltava um acorde para fechar e eles contaram com a colaboração, por telefone, da maestrina Madeleine Ruffier. No mesmo dia, levei a gravação em acetato ao Palácio e pedi uma eletrola para mostrar o monstro (ou demo) ao comandante. Brizola e os demais ouviram e se emocionaram. Mas ele pediu para tirar a palavra “gaúchos” e colocar “brasileiros” no início da letra. ‘Eu sei que não é só trocar a palavra, mas vocês dão um jeito no arranjo’, nos disse o governador”.

O resto do encaminhamento do Hino, Mario não acompanhou. Mas o resultado foi uma música fácil para o povo cantar, “um hit parade”, afirma. A Cadeia da Legalidade se encarregava de difundir a composição. O escritor destaca que a palavra mais acertada é “cadeia” e não “rede”, que só seria empregada em relação à televisão, mais tarde.

Peça para um convidado especial

A exemplo de outras instituições, o Comitê dos Artistas e Intelectuais Pró-Legalidade decretou assembleia permanente em função da Legalidade, diz o escritor. Alguns dormiam no próprio Teatro, atentos às necessidades que iam aparecendo. Mario, em especial, presidia as assembleias onde eram decididas questões práticas, como a formação de comitês.

Também havia os visitantes que vinham ao Teatro para dar apoio. “Foi o caso de um fazendeiro gaúcho chamado Pimenta, que naquela época estava morando no Paraná. Chegou e ficou observando tudo. Até que exclamou: ‘essa revolução parece promissória de cigana, não sai nunca’”.

O próprio Leonel Brizola, após o final do movimento, prestigiou pessoalmente os artistas. Estava em cartaz a peça O Despacho, de autoria de Mario de Almeida, com 15 atores, uma farsa que critica a situação política do Brasil. Durante a Legalidade, o espetáculo foi suspenso. “O assessor Hamilton Chaves disse que o governador queria assistir à peça, mas não em uma sessão comum. Então, fizemos uma apresentação especial às 11 horas da noite para ele e sua equipe, cerca de 20 pessoas. Depois daquele dia, Brizola nos ofereceu uma temporada no Rio e São Paulo com a peça, mas como o dinheiro (arrecadado entre integrantes do PTB) custou a chegar, não foi possível, pois o elenco já tinha se dispersado”, conta Mario de Almeida.

A chama acesa da cidadania

Em 2004, poucos dias antes da morte do ex-governador, Mario de Almeida encontrou Brizola em uma livraria no Rio de Janeiro, para o lançamento de um livro de Flávio Tavares. Os dois conversaram, recordando o episódio de 1961.

– Se tivéssemos ido para as cabeças, a gente ganhava — disse Brizola.

– E eu nunca pensei outra coisa – respondeu Mario.

Para o escritor, a Legalidade “não tinha partido nem ideologia específica; foi uma causa maior. Neste sentido, a palavra Legalidade é perfeita, pois tira o estigma de estar defendendo uma ideologia. O Brasil mudou naquela época, virou um caldeirão de agitação política. A Legalidade acendeu o aspecto da cidadania em todos nós”.

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Mario de Almeida

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