1º capítulo
Somente com este título
uma crônica pode ser longa.
Ninguém vira as costas
para este assunto,
ou Nelson Rodrigues nunca
teria sido Nelson Rodrigues.
A infidelidade, este tema obscuro, está para os porões da psique humana, como a rachadura está para o paredão da represa que desmorona aos poucos. E quando a parede estoura, liberta um rio de lágrimas, de sangue e de veneno. Para deixar tudo ainda mais interessante, este coquetel operístico ainda contém mais um ingrediente perturbador: homens e mulheres se veem assombrados por um tesão irresistível, ou pela adúltera, ou pelo safado. Hó, Senhor, se sabia o que ia acontecer, porque reuniu uma cobra, uma maçã, um homem e uma mulher no mesmo jardim? Não estaria o Senhor a nos mandar uma mensagem atemporal? Quis nos dizer que, nos meandros das relações humanas, não têm almoço grátis? Era isso, Senhor?
O curioso é que o sentimento de posse não tem origem em nossa ancestralidade. Embora ele seja o caldeirão em que fervem todos os ingredientes passionais, o pecado da infidelidade (e sua imprevisibilidade) só surgiu depois que a Igreja o inventou. Foi depois disso que, flagrados pulando a cerca, os casais transformam suas rotinas em dramas agudos, com separações rancorosas e, sem nenhum pudor, se mudam da crônica social para as páginas policias. O cancioneiro popular é pródigo na descrição de amores enraizados em terrenos pantanosos, em paixões malditas.
Vem de longe este viés, secreto, inconfessável e humilhante talvez, muito embora, nada mais humano: a paixão provocada pela perda ou pela infidelidade, pela guampa, como se diz em Bagé. Afinal, diria Nelson Rodrigues, não há nada de interessante na vida da mulher honesta.
Desgraçadamente, por causa das substâncias perversas e irresistíveis deste tipo de paixão, em muitos casos, os homens matam. Preferem a mulher, agora desejada numa dimensão abissal, morta, do que nos braços de um outro qualquer.
Já as mulheres, em alguns casos, após passar em revista todos os amigos do ex-marido, retalham nos tribunais, até arrancar o ouro da obturação do infiel, se possível. Em ambos os casos, as palavras chave para compreendermos suas motivações são: vingança,vingança e vingança. Segundo Freud, a vingança impede que o ódio em ebulição destrua o odiador.
Nos anos 1970 e 1980, a Clínica Master Johnson fez um sucesso desproporcional ao seu perfil médico-terepêutico. O livro com relatos dos casos atendidos, e com finais felizes, foi fenômeno de vendas ao redor do mundo. A clínica prometia salvar casamentos deteriorados pelo tédio. Partia da suposição (não necessariamente comprovada em todos os casos) que, quando surge o risco da infidelidade, tanto o homem como a mulher, são invadidos por tremendas transformações químicas. Descargas de hormônios e testosterona entram na guerra para resgatar os respectivos infiéis. Neste estado de ânimo (perda de controle sobre o outro) homens e mulheres são tomados de paixão brutal, motivada pelo risco da perda.
Ora, para os terapeutas da Master e Johnson, a aridez provocada pelo excesso de segurança, combinada com a solidão do tédio, não desestabiliza um casamento, mas juntos, ou isoladamente, estes fatores agem como os cupins, ao manterem a aparência das coisas, enquanto devoram suas entranhas, até o vazio completo. Com este cenário psíquico, Master e Johnson propunham ao casal um ato de “infidelidade consentida”, mas fora do controle dos cônjuges. Que tal?
Continua na próxima terça.

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