Isso num si faiz Arnesto
Nóis num si importa
Mais ocê divia ter punhado um recado na porta
O Arnesto nus convidô
Prum samba, ele mora no Brais
Nóis fumu num encontremu ninguém
Nóis vortemu cuma baita duma reiva
Da otra veiz nóis num vai mais
Noutro dia encontremu co’ Arnesto
Qui pidiu discurpas mais nóis num aceitemu
Isso num si faiz Arnesto
Nóis num si importa
Mais ocê divia ter punhado um recado na porta…
( Adoniran Barbosa e Alocin)
Não escrevi uma única palavra sobre a tragédia do Realengo, idem sobre o casamento em Westminster, não pretendo palpitar sobre a fortuna do Palocci e muito menos comentar sobre a enrascada sexual (ou enroscada?) do ex-diretor-gerente do FMI.
Face às minhas notórias omissões, inclusive nas redes sociais, dei-me sinal verde para escrever sobre um livro que vem distraindo a nação e que faz da língua inculta e falada uma vítima dos doutos e dos pseudodoutos.
Não pretendo opinar, pois teria que ler o livro e invadir a área do Ensino, coisa que não pega bem para quem não não é do ramo, como eu. Acontece que tem tanta gente que também não é do ramo, que também não leu o livro e encheu os meios de comunicação de palpites, resolvi entrar no papo com a mesma falta de seriedade dos 99% dos pitacos que li e ouvi.
Como gosto de diversão, o texto de hoje não passa de um exercício do bom humor, pois Gonçalves Dias já poetou um bom conselho: Não chores, meu filho / Não chores, que a vida / É luta renhida… Tu vem comigo?
A gente não entendemos que um “nóis vai lá” passe a ser crime federal, mas a discussão parece válida, principalmente para os jornalistas que escrevem que “o povo assistiu o jogo ou o jogo foi assistido” uma criminosa apropriação do falar do povo, como pretende Heloísa Ramos, autora do livro que incendeia discussões. Quem não aceita que o professor aceite o erro, desde que inteligível, para chegar ao certo, esperneia (só os que não são pernetas).
Alguns críticos da obra se permitem dizer que o livro ensina a errar, o que também é uma criminosa falácia de confundir “aceitar” o erro com “ensinar errado”.
Nem vou colocar minha colher nessa panela, pois vivo num país onde – já escrevi aqui – os doutos pegaram a pronúncia inglesa do vocábulo latino media e traduziram para um monstrengo chamado “mídia”, ignorando que esse plural latino já era usado no Brasil no mesmo sentido que hoje se usa “mídia”. Aliás, media, “meios” em Latim, está inserido como matriz do vocábulo do mesmo sentido em diversos idiomas e, em Portugal, é média.
Essa “via crucis” do erudito para o popular desopila qualquer fígado mais sensível às barbáries de quem mexe no imexível.
Espero que o deputado gaúcho Raul Carrion, que conseguiu aprovar uma lei proibindo o uso de estrangeirismos, não leia essas linhas, pois terá um enfarte fulminante.
Já escrevi aqui sobre alguns besteiróis de uso constante e talvez o mais notório em nossa escrita seja com o etc., abreviatura da expressão latina et cetera e cujo significado é “e coisas”.
Como ninguém é obrigado a conhecer o Latim, a quase totalidade dos brasileiros colocava a vírgula antes do etc., culminando na repetição do “e”, ou seja, “e e coisas”.
A Academia Brasileira de Letras, também entendendo que ninguém é obrigado a saber Latim, através de aprendizes precoces do livro da Heloísa Ramos, imortalizou a vírgula antes do etc. e quem, agora, não virgular antes, erra.
Aí sim, este caso é um exemplo óbvio de ensinar errado, o que não é o caso do livro em pauta.
Sem entrar no mérito da obra em questão, lembro que Paulo Freire nos ensinou que alfabetiza melhor quem usa o vocabulário do aprendiz.
Tu veio mesmo comigo?
Inté (sou caipira do Interior paulista e me despeço como aprendi inda analfabeto). Aceitem-no.
Vitrine (comentário sobre a coluna anterior)
Mario, bom dia! Pode ser que eu esteja enganada, mas sinto que “a emenda saiu melhor que o soneto”. Lucia Aguiar, funcionária pública, Fortaleza. (referindo-se ao talk-show com Amir Haddad, Paulo José, Rogério Fróes e eu mesmo na Casa de Cultura Lauro Alvim).

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