Hoje entrego a coluna a Paulo Amaral (veja lá no final o currículo abreviado dele), que fala sobre minhas pinturas. Lá vai:
“Passou-se algum tempo para que eu pudesse assimilar com maturidade a pintura de Paulo Tiaraju, o escritor, o publicitário, mas antes de tudo – e agora para mim – o artista. Estive em seu ateliê ontem à tardinha para analisar, a seu pedido, um trabalho comissionado que está prestes a entregar ao seu privilegiado dono. Dizia o Nelson Jungbluth que todo o quadro tem o seu dono, ou seja, aquele que será tomado de paixão pelos registros pictóricos mais sensíveis da obra. E deparei com uma tela magistral tanto pelas proporções quanto pela qualidade de seu conteúdo e de sua forma. Aquele quadro poderia ser meu, e invejei a iluminada pessoa que o encomendou.
Para um autodidata como Paulo, trata-se mesmo de uma lição aos que optaram, pela via acadêmica, os caminhos da criação artística. Quero dizer, em síntese, que descobri naquele trabalho várias considerações que a arte dita contemporânea não quer contemplar, antes de tudo porque não ousa enfrentar. Como a maior parte de seus quadros, começa por uma releitura – neste caso “A Liberdade guia o Povo”, de Delacroix, até o ponto em que o modelo possa assimilar de forma meticulosa a lição sobre claros-escuros, sobre composição, sobre técnica em geral, tudo isso a desembocar numa mensagem vigorosa sobre o conteúdo eleito, mensagem esta que já não é uma cópia, mas um discurso próprio do artista.
Paulo já exibia esta particularidade em recente exposição, onde apresentou em suas telas um pouco de Portinari, outro tanto de Aldo Locatelli, de Malagoli, de Picasso, de Teruz e de Juarez Machado, por exemplo. Mas, em cada quadro, Paulo impôs a marca própria, como se, valendo-se da lição de grandes mestres, sem maneirismos de qualquer espécie, deles não ousasse extrair o plágio, mas o sumo da inspiração técnica para criar uma obra integralmente autóctone, perpetuando, assim, a sua maneira, a criação do “seu” belo.
Este exercício de observação, a pertinácia no copiar exemplos grandiosos, é o que falta hoje a muitos que se dizem artistas. Quantas crianças se vêem em museus da Europa, a copiar grandes mestres como Velásquez ou Rodin, El Greco ou Caravaggio? A arte é um eterno aprendizado. Os quadros de Paulo Tiaraju proporcionam não só a releitura de imagens-ícones, mas a noção exposta dos valores da boa arte. Pois que em arte só existem duas: a boa e a má. Domínio sobre o desenho da figura humana, ponderação sobre luz e sombra, escolha de cores compatíveis entre si, tudo isso revela o artista de forma plena, e, principalmente, conhecendo-se sua sensibilidade, tudo isso está a serviço de uma mensagem concreta, como aquela que Tiaraju escreve todos os dias, agradável de ser ouvida e necessária de se reviver.”
Paulo Amaral
13 de maio de 2011
PAULO CÉSAR BRASIL DO AMARAL
PAULO AMARAL nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1950. Iniciou seus estudos em pintura na Califórnia, em 1967. No Rio de Janeiro filiou-se à Sociedade Brasileira de Belas Artes, convidado pelo artista Sansão Campos Pereira, cujo ateliê freqüentou nos anos 70 com o incentivo deste excepcional amigo e mestre do qual recebeu forte influência em sua arte. Formou-se engenheiro civil, exercendo carreira por 30 anos em Porto Alegre, onde também presidiu o SINDUSCON-RS. Suas atividades no campo das artes não se restringiram ao ofício da pintura. Dirigiu o Museu de Arte do Rio Grande do Sul ( MARGS ) por dois períodos. Foi curador, pelo Rio Grande do Sul, da Saison Brésil-France (Ano do Brasil na França) e desempenha esta atividade dedicando-se em especial à identificação e ao incentivo de novos talentos nas artes plásticas. Como escritor, é autor de inúmeros textos críticos em livros e jornais e de apresentação de artistas plásticos. Sua pintura, iniciada nos anos sessenta com marinhas, passou a abordar a cena urbana estática, primeiramente através de detalhes que, como gravador e pintor, imprimia em suas fachadas, portas e janelas, tema que persistiu por quase três décadas durante as quais o artista desempenhou importante papel na preservação do patrimônio histórico de seu Estado. Sua pintura mais recente tem abordado o tema “Cidades vazias”, influência clara de suas freqüentes viagens pelo mundo. Seu currículo conta mais de quarenta exposições individuais no Brasil e no exterior, cerca de 150 coletivas, participação em salões de arte, como artista e jurado, e participações em acervos de museus. Representa a Galerie d’Art François Mansart, de Paris, para a curadoria e seleção de artistas brasileiros. Em 1994 recebeu a Ordem do Mérito das Belas Artes, no grau de Comendador. É membro da Academia Brasileira de Belas Artes, ocupando a Cadeira número 45, patronímica de Emiliano Augusto de Albuquerque Mello (Di Cavalcanti).

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