
…Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est levé…
Antes da chegada das geladeiras à eletricidade em São Paulo – Frigidaire –, o possuidor de geladeira recebia na porta de casa uma ou mais barras de gelo, a “energia” das mesmas. Também nas portas das casas deixavam o leite, em litros de vidro e as bisnagas de pão – o pão de 50g, francês – inda não existia.
A carroça era o transporte comum do leite e do pão, assim como dos compradores de metais e de garrafas. Aliás, antes, com a chegada dos automóveis, os carros-tanques que conduziam a gasolina aos postos de serviço eram movidos a cavalo.
Como a inflação era zero, o acerto dessas contas era mensal.
Como nem toda a cidade estava integrada à rede de gás de cozinha, quem não tinha gás cozinhava com carvão. Botijão não existia, e o uso do carvão estava longe de ser exclusivo para os churrascos. Além das muitas carvoarias, os grandes armazéns ou empórios tinham nos quintais seus depósitos de carvão embalados em sacos de estopa. Esses estabelecimentos também revendiam o pão, e os fregueses habituais tinham uma caderneta que registrava, nas compras, os valores das mesmas. O acerto também era mensal, com o direito de ganhar um brinde, tipo lata de goiabada.
Foi nessa São Paulo meio que consumidora do carvão, onde o gelo resfriava, o bonde transportava e o cidadão comum respeitava os hábitos urbanos, que recebi minhas primeiras aulas de cidadania, cuja maior parte da nação perdeu de há muito (Maria Lenk começou a nadar no Rio Tietê, hoje um vaso sanitário a céu aberto).
Quando o Brasil entrou na 2ª Grande Guerra, em agosto de 1942, os centros urbanos do país foram envolvidos em dois grandes e coletivos esforços de guerra.
A cultura da sobrevivência apontava para dois caminhos: o plantio de hortas nas casas com quintais ou criação de galinhas. Como morávamos numa casa com quintal com quase 200 metros quadrados, meu pai, como muita gente, partiu para as duas alternativas e, além de hortaliças, chegou a criar 100 galinhas de uma só vez, New Ampshire e Rhode Island Red, ambas raças de boas poedeiras, com bons pesos de carne e criação rústica.
Nos terrenos desocupados, estrategicamente escolhidos pelos moradores das cercanias, foram baseadas as Pirâmides da Vitória, onde eram depositados todos os tipos de metais para reciclagem. Por ser, na época, um garoto paulistano e ambulante, sentia-me confortável e orgulhoso da minha cidadania.
Data inesquecível da Segunda Guerra é 6 de junho de 1944 – Dia D –, quando as forças aliadas saídas da Inglaterra atravessaram o Canal da Mancha e invadiram a Normandia, com a França então toda ocupada pelos nazistas.
Na véspera, foram irradiadas, pela BBC de Londres, as senhas para a invasão no dia seguinte: os quatro acordes iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven; as palavras “Mickey Mouse” e os primeiros versos da famosa “Chanson D’automne”, de Paul Verlaine:
Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur D’une langueur
Monotone.
Dia 8 de maio de 1945. Pouco mais de 10 horas da manhã, ginásio, aula de Francês com uma professora refugiada de Paris, Mme. Marina. Dona Alice, a inspetora, entra na sala de aula e diz: Madame, as aulas estão suspensas, a guerra acabou. Como se combinado, nos levantamos e começamos a cantar:
Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Passados 35 anos, noite de 8 de maio, nasce a segunda filha, Carla.
Que a paz continue conosco.
Inté
Vitrine (Comentários sobre a crônica anterior)
Que ternos momentos, Tio Mario! Sílvia Wolff, arquiteta, São Paulo.
É de momentos que se vive e revive. E o poeta inglês Keats percebeu que a thing of beauty is a joy forever. É o enamoramento eterno. A graça do enamoramento, feliz quem se considera eleito. Thanks. Vera Verissimo, psicóloga, tradutora, Porto Alegre

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