Visto da extratosfera, é um lindo corpo celeste, girando na imensidão inimaginável, mas, de perto, nenhum planeta é normal. Além dos filósofos da Grécia antiga, desta vez foi um publicitário que me proporcionou uma lufada de esperança no futuro. O comercial da Coca-Cola nos disse que existem muito mais pessoas inocentemente bebendo uma Coca do que gente que trucida, estupra, frauda, submete, corrompe, rouba, desvia, trai, extermina com o uso de câmara de gás, de bala, de bombas estilhaçantes, a exemplo do que Kadafi está fazendo na Líbia. Claro, tem uma forte dose de marketing nesta promessa da Coca, eu sei, sou do ramo, mas tem um fundo de verdade. O mundo é mau? Não sei. Se nossa contemplação se espraiar no meio-oeste americano (no cinturão da Bíblia), sim, o mundo é mau. Para aquele pessoal, ou você crê em Deus, ou está contra Ele. Costumo ter um arrepio ruim quando penso em gente que adota práticas sombrias, como misturar sangue com a palavra do Senhor.
Porém, me comovo profundamente quando lembro dos Médicos sem fronteira, assim como quando lembro de Tim Hetrerington, que, junto com Sebastian Junger, filmou Restrepo, o documentário que mostrou e narrou um episódio brutal de uma guarnição do exército norte-americano nas montanhas do Afeganistão. Foi indicado para o Oscar de Melhor Documentário. Restrepo conta a história de Restrepo, um soldado americano (de origem italiana) que, praticamente sozinho, salva da morte certa todo o seu grupamento. Ele rastejou na escuridão por uma noite inteira, surpreendeu e matou dezenas de talibãs, e… não vou contar, pegue o vídeo, vale a pena. Na semana passada, Tim Hetrerington morreu nas ruas de Trípoli, atingido por disparos de morteiro. Fiquei muito tocado porque vinha acompanhando a trajetória deste heróico correspondente de guerra. Sem eles, nunca teríamos as provas documentais sobre os atos excruciantes dos ditadores perpetuados no poder, à custa do sangue dos povos. O mundo é mau.
Milhares de mulheres, em silêncio e no anonimato, zelam pelos inválidos, por crianças vulneráveis e velhos abandonados nos asilos. Elas cuidam com alegria contagiante, elas são uma imensa comunidade que se percebe por meio de vasos comunicantes. O mundo é bom.
O mundo é bom. São outras milhares de pessoas reclusas no silêncio dos laboratórios dedicadas a experimentos e à pesquisa para cura dos flagelos que assombram a humanidade. Neste momento prospera (a passos de botas de Sete Léguas) pesquisas focadas em células-tronco. Enquanto isso no Brasil cresce a preocupação sobre as práticas sexuais da Preta Gil e a hidrofobia do Bolsonaro. O mundo é ridículo também.
Não me saem da cabeça as cenas de pessoas cavando a lama naquele fatídico deslizamento de terra na região serrana do Rio. Eram pessoas que estavam ali, na escuridão, no meio da lama, cavando com as mãos, pela vida de gente que nem conheciam. O mundo é bom. O formigueiro de gente faz o mundo melhor. Geralmente, é o formigueiro que surge no meio dos escombros, nas avalanches, em meio às tragédias coletivas. O formigueiro é movido por uma única consciência e um só coração. E assim como surge do nada, desaparece sem deixar pistas. Quem foi? Quem fez? Para eles, o que menos importa é a publicidade dos seus atos. Cada um deles sabe o que fez, isso basta. O mundo é bom.
Trinta anos depois reencontrei a garota por quem fui estupidamente apaixonado quando jovem. Foi uma paixão romântica e antiquada, incendiária e tormentosa, profunda e duradoura. Ela nunca ligou a mínima para mim. Naquele tempo, brinquedos caros e garotas bonitas não eram para mim. Um belo dia (na atualidade, é óbvio), ela me achou no Facebook e me procurou. Marcamos um encontro. Eu fui mas ela, não. Dias depois me mandou um email ressentido dizendo que me esperou por mais de uma hora. Ou seja, ambos fomos, e não nos reconhecemos. Não deveria ter ido. Ela era tão linda. O mundo é mau. Mas, quis a vida que gente não se encontrasse. Melhor assim. O mundo é bom.

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