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O massacre de Realengo

A terrível tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro na semana passada é algo que todos desejam esquecer o mais rápido possível. …

A terrível tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro na semana passada é algo que todos desejam esquecer o mais rápido possível. Por isso a inconveniência desta crônica. Mas, graças ao livre arbítrio, ela só será lida se você desejar.

Serão dezenas de artigos e ensaios especulativos na imprensa nacional e internacional, e todos com o mesmo objetivo: se aproximarem das motivações subjacentes da besta, ainda que sejam loucas motivações, ainda que distorcidas pela demência, ainda que originárias de uma mente remota, estranha e absurda. Contudo, nada nem niguém irá propor mais do que teorias. Escrevo não para tentar entender em que língua a besta falava, isso é impossível. Escrevo para praticar o mais velho exercício que existe, quando precisamos aceitar o inaceitável, para continuarmos vivendo: conversar. Precisamos conversar sobre esta tragédia, como amigos que se abraçam e choram juntos. Precisamos chorar juntos para fazer parte do lado oposto das trevas.

No entanto, nos momentos mais tensos daquela brutalidade, durante as transmissões da imprensa, percebi algumas pessoas entre a indiferença e a apatia. E outras que passaram ao largo desta que foi, de longe, a pior tragédia envolvendo crianças em nosso país.

Em geral, situações extremadas são reveladoras sobre quem está em sintonia com uma civilização em aprimoramento, quem vive fora da realidade, e quem vive recluso na primitiva bolha das vantagens individuais, e nada mais. Este indivíduo umbilical (e indiferente) não chega a ser um avalista da besta do Realengo, claro, longe disso, mas a sua omissão deliberada o torna alguém moralmente permissivo do tipo “Não tô nem aí”. Ele não é contra nem a favor, para ele, “tanto se me dá”. Você já ouviu esta expressão? Tanto se me dá. Algo como “estou me lixando”. Acha que estou exagerando? Não creia nisso, apenas crio visibilidade a um modo de ser banalizado por uma parcela significativa da sociedade, aquela que está se lixando para tudo e para todos.

Porém, assim como não tenho nenhuma autoridade para falar sobre o que passou pela cabeça da besta – muito já se falou em coquetel religioso com fixação sexual, solidão beirando o autismo, e tudo requentado no fogo de antigos ressentimentos –, sobre os indiferentes, sim, localizo um fio condutor de raciocínio simples e aceitável. A premissa cai de madura. O omisso se nega a refletir sobre o episódio porque, num primeiro momento, ficou muito assustado. E ficou assustado porque o causador de tanta loucura e desespero não é um ser extraterrestre. O causador é um homem, um brasileiro, um tipo comum, aparentemente, portanto, um semelhante ao omisso. Conclua o raciocínio. Óbvio, o cara finge que não aconteceu nada por absoluta fragilidade emocional. Porque ficou muito assustado, afinal, todos ficamos. Mas, no caso desses “indiferentes”, muitos deles levam parte da autoria daquela aberração para o terreno pessoal, como se fosse possível ocorrer algo do gênero com eles. Não estou tentando ser original, muito antes de eu terminar o parágrafo, você já havia concluído isso.

Autor

Paulo Tiaraju

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