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Respingos da memória

Capa do hino da Lara de Lemos e do Peréio Dezembro de 1960. Porto Alegre. Teatro de Equipe em férias. Resolvo pegar um avião …

Capa do hino da Lara de Lemos e do Peréio

Dezembro de 1960. Porto Alegre. Teatro de Equipe em férias. Resolvo pegar um avião e passar as festas em São Paulo, com meu pai, madrasta e família. Dia 29 aviso meu pessoal que volto no dia seguinte. Surpresa geral. Explico que desde a vitória de Jânio para presidente, a futura posse daquele bufão mexia com minhas ideias sobre o destino da nação. Pouco mais de 30 dias depois estava escrito o texto da farsa O Despacho. Reiniciados os trabalhos da Equipe, Fernando Peixoto dirigia e estreava Pedro Mico, de Antonio Calado. Em testes divulgados pela imprensa eu recrutava atrizes e atores para o Despacho que, em 18 de julho fazia sua primeira apresentação para os titulares das cadeiras cativas do Equipe. Controvérsias sobre o espetáculo rendiam boas casas e, em 25 de agosto, Jânio renuncia. Ranieri Mazzili, presidente do Congresso, assume como interino, pois o vice-presidente, João Goulart está na China, em viagem oficial. Os Três Patetas – como passaram à História –  vice-almirante Sílvio Heck, Ministro da Marinha; marechal Odílio Denys, ministro da Guerra; brigadeiro do ar Gabriel Grum Moss, ministro da Aeronáutica opuseram-se à posse de Jango quando retornasse ao país. Face à tentativa de quebra da ordem legal, o governador do Rio Grande, Leonel Brizola, conclama o povo à resistência e surge o movimento Legalidade. Quem não aderiu ao movimento, calou-se. Nos porões do Palácio Piratini radialistas e jornalistas criaram a Cadeia da Legalidade que passou a ser a voz daquele movimento popular. Num local conhecido como Mata-borrão abriu-se a inscrição do voluntariado para formar as milícias em caso de guerra civil. Peréio levou-me lá e nos inscrevemos. O Despacho interrompeu sua temporada, o Equipe transformou-se no Comitê de Artistas e Intelectuais Pró Legalidade, instalou assembleia permanente e promoveu uma passeata por ruas da cidade. À frente da passeata, carregando a bandeira nacional, o festejado autor de Os Ratos, o psicanalista Dionélio Machado, ex-combatente na Revolução Espanhola. Paulo Schilling, assessor de Brizola, telefona para o Equipe e pede minha presença no Palácio Piratini. Fui na carona da moto do sargento Antônio José, já então meu “motorista” pessoal durante o movimento.  Os pedidos do Palácio transformaram o Equipe na agência de propaganda da Legalidade: cartazetes e outros materiais para impressão na Gráfica Oficial, textos para a Cadeia da Legalidade e um hino para o movimento. No mesmo dia, enquanto escritores e artistas plásticos encarregavam-se do trabalho, Lara de Lemos e Paulo César Peréio criaram o hino: Avante brasileiros de pé… O impasse permanece e o comandante do III Exército, general Machado Lopes, desrespeitando a hierarquia militar coloca-se ao lado de Brizola e da legalidade. Enquanto isso, no Planalto, costurava-se uma proposta para ser levada a Jango, então em Montevidéu, aguardando os acontecimentos. Tancredo Neves foi o pombo correio da proposta: Jango poderia assumir, desde que no regime parlamentarista. Um tapa na cara dos Três Patetas. Jango resolveu dar a resposta em Porto Alegre. Ao dizer, numa sacada do Piratini, aceitar o novo regime para evitar uma guerra civil, enfureceu o povo que se espremia na Praça da Matriz. Uma única palavra chula gritada em coro uníssono evidenciava o desejo de Legalidade ou solução pelas armas. Uma emenda constitucional substituía o presidencialismo pelo parlamentarismo e, em 7 de setembro de 1961, Jango era empossado. Dias antes o Despacho voltava ao cartaz com um aviso: um ator dizia à plateia que o espetáculo não sofrera nenhuma modificação e que era exatamente o mesmo desde sua estreia. Acontece que a peça terminava com uma ameaça de guerra civil no país. Não demorou muito para que me perguntassem qual o bicho que ia dar e quem ganharia o próximo Grenal. Face ao sucesso do espetáculo, Brizola pediu e ganhou uma sessão especial para ele e staff. Quando candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, acolhendo um pedido dele, radiofonizei O Despacho, transmitido diversas vezes na Rádio Mayrink Veiga, uma emissora carioca. Brizola foi o deputado federal mais votado em todo o Brasil.

Maio de 2004. O escritor e jornalista Flavio Tavares lança seu livro O Dia em que Getúlio matou Allende na Livraria  Travessa, em Ipanema. Leonel Brizola, naquela que seria sua última aparição pública, e eu chegamos antes do autor e iniciamos uma conversa que terminou assim:

– Mario, eu acho que se na Legalidade tivesse havido confronto, a gente venceria.

– Nunca imaginei outra coisa, comandante.

Avante brasileiros de pé

Unidos pela liberdade

Marchemos todos juntos

Com a bandeira que prega a lealdade

Protesta contra o tirano

E recusa a traição

Que um povo só é bem grande

Se for livre sua Nação

Inté.

Vitrine (Comentários sobre a crônica Os Scliar)

Esta é uma das colunas que chamo “um rio que flui”, e nós, tranquilos, na margem, vendo passar. O rio é o teu estilo. Ótima ideia falar sobre outros Scliar. Merecido e diferente. Dei uma gargalhada quando li a frase do Henrique ao fim da tua palestra no Clube de Cultura. Só quem te conhece sabe o que isso tem de engraçado mas de afetivo também. Ô Lúcifer, já tinhas que colocar meu nome de novo, lá, né?

Bj, Vera (Verissimo) psicóloga e tradutorara, Porto Alegre.

Mario de Almeida, bom demais tuas crônicas sobre a família Scliar. Encantos de um passado que viveste/viveram, e reverência pela memória que deixam. Sei que administras a aposentadoria compulsória há muito tempo, sobre temas políticos na nação do futuro. Como o Obama acha que não é mais uma democracia de bananas – ele anunciou o ataque à Líbia em território brasileiro, na melhor… pode! – poderias revolver das cinzas tua aversão e trabalhar um pouco as memórias do Movimento da Legalidade ocorrido em 1961. Faça em nome dos cinquenta anos desse “arroubo gaudério” de defender a constituição e os direitos de quem deveria assumir a função que o povo outorgou pelas urnas. Grande desafio, mas pequeno para ti. Está proposto na Assembleia Legislativa do Estado, pela deputada Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola, atos de comemorações pelos cinquenta anos do Movimento da Legalidade. Haverá um congresso do PDT em Porto Alegre, que inicia em 25 de agosto para comemorar o cinquentenário. Lembre-se que Lara Lemos e Paulo César Peréio compuseram música e letra do hino da Legalidade: “Avante brasileiros de pé unidos pela liberdade …”. Eloí Flôres, diretor Ulbra Guaíba, Porto Alegre.

Autor

Mario de Almeida

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