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Dedicatória em “O Anão na Geladeira” |
“Quando um amigo morre, leva um pouco da gente”, confessa Sérgio Porto, através do seu heterônimo Stanislaw Ponte Preta.
Nos últimos tempos andam levando muito de mim.
Moacyr Scliar, o escritor judeu, porto-alegrense do Bom Fim, imortal da Academia Brasileira de Letras, operário da escrita, levou muito de nós, dos amigos e dos leitores de uma obra tão prolífera quanto versátil. Tive a fortuna de acompanhar de perto o início e a ascensão do então jovem Scliar.
Na noite de cinco de novembro de 2001, num salão do Clube do Comércio, a 47ª Feira do Livro de Porto Alegre promoveu o painel “Teatro de Equipe Casa de Cultura de Porto Alegre”, sob a coordenação de Ivette Brandalise.
Convidado a participar, fui aqui do Rio e na Mesa estivemos com a Ivette, o arquiteto Milton Mattos, o jornalista Hiron Goidanich e o escritor Moacyr Scliar.
Aquele painel, gravado pelo jornalista Rafael Guimaraens, gerou a parceria dele comigo e em 2003, no Theatro São Pedro, lançamos o nosso livro Trem de Volta Teatro de Equipe. Naquele livro, está o depoimento do escritor sobre o Teatro de Equipe:
“Eu era estudante de Medicina e recém estava escrevendo meus primeiros contos. Por formação familiar, tinha uma verdadeira veneração por ambientes culturais, especialmente o Clube de Cultura, que reunia os intelectuais ali no Bom Fim. O Teatro de Equipe foi um núcleo cultural da maior importância. Lembro de um debate artístico que reuniu muitas figuras importantes das Artes Plásticas, como o meu primo Carlos Scliar, em que o Iberê Camargo cunhou a expressão que seria repetida à saciedade: o marasmo cultural do Rio Grande do Sul. Depois, aquilo ficou sendo um diagnóstico, o que nos deprimia enormemente porque não correspondia à verdade. O Rio Grande do Sul, ao contrário, vivia um momento de profunda atividade cultural e política, o que ficou evidenciado em agosto de 1961, no episódio da Legalidade. Tenho uma imensa saudade de uma época em que muitas coisas aconteceram, não só no teatro. Em 1962, lançaríamos a primeira coletânea de contos que se tem notícias no Rio Grande do Sul, a Lara (de Lemos), o Sergio Jockymann, o Ruy (Carlos) Ostermann, o Josué (Guimarães). Lembro que tivemos que arrancar um conto do Josué, a Tânia Faillace, o Sérgio Porto, que é falecido, o Arnaldo Campos. Só não fomos felizes no nome, os Nove do Sul, porque, na época, havia um chá muito famoso, o Chá 9 Ervas, e a turma fazia confusão e brincadeiras. Essas coisas provam que não havia nenhum marasmo cultural.”
Tanto já levaram de mim que a ida do Moacyr, em 27 de fevereiro, deixou-me a sensação de que sou um mendigo afetivo.
Aracy Guimarães Rosa
O mais famoso livro do escritor Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, foi dedicado à segunda mulher do escritor, Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, que se foi, aos 102 anos, no último dia 3.
Dona Aracy, na ditadura Vargas, quando trabalhava no consulado brasileiro em Hamburgo, ajudou muitos judeus que fugiam do holocausto a entrarem ilegalmente no Brasil..
Aracy tem o nome escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, e é homenageada no Museu do Holocausto de Washington (EUA).
João Guimarães Rosa, inda que casado no Brasil, ao servir na Alemanha, conheceu Aracy e se apaixonaram. Casaram-se por procuração no México, já que ainda não era permitido o divórcio aqui. Ficaram juntos até a morte dele em 1967. Durante os quase 30 anos de união, o escritor publicou toda a sua obra. A duração dessa união comprova uma definição de Guimarães Rosa: Amor é sede depois de se ter bem bebido.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna do “Cálculo por dentro”)
Mestre Mário, mais uma acintosa canalhice com o ranço de nosso hediondo setor público. Quem me conhece sabe que, por essas e (muitas) outras, deixei de ser patriota há muito tempo. E o pior é não enxergar nenhum lampejo de luz no fim do túnel – se é que ele tem mesmo um fim. Êta povinho! Abração! Carlos Eduardo Cunha, Florianópolis.
Grato, Mario. Que tal um grande movimento popular “O povo contra políticos e autoridades achacadoras”. Abraços. Eng. José Carlos Pellegrino, São Paulo.
Jovem Mário, bom dia! Lúcida análise e clara conclusão. Sem a tua permissão já transmiti a tua crônica para os amigos. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda, PE.


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