Os Coroas era uma oficina de chapeação e pintura de automóveis que existiu aqui em Porto Alegre, até a década de 1990. Reuniram-se – como sugere o nome – alguns “coroas”, veteranos na arte da chapeação. Alguns até já estavam aposentados. Mas, basicamente, sabiam os atalhos e segredos da profissão.
Isso agora está acontecendo com os clubes de futebol brasileiro. Estão repatriando ou contratando “coroas” (logicamente que são considerados coroas para um ambiente que trabalha com revelações e final de carreira tão precoces como o futebol): caras que já poderiam estar se aposentando, mas que jogam porque gostam e, fundamentalmente, sabem os atalhos do campo e de fora dele.
Alguns, de fato, já deveriam ter se aposentado. Ou não têm mais pique ou não querem mais nada com o batente futebolístico. Outros, porém, jamais deveriam se aposentar. Têm vitalidade, talento e sabedoria. Rapidez de raciocínio completa o quadro. Além disso, emprestam sua experiência aos mais novos do elenco, tanto dando ensinamentos para a vida quanto para competições como uma Libertadores, um Mundial Interclubes.
Do ponto de vista mercadológico, são bola na rede. Estes medalhões (me desculpem este termo, direto do Túnel do Tempo, mas acho que estou meio nostálgico) já se consagraram no mercado nacional ou internacional do futebol. Sua imagem vale muito.
Suas contratações normalmente alavancam contratos de patrocínio. Quer contratos pontuais, como foi o caso da Visa nas estreias de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo e de Rivaldo no São Paulo, quer contratos permanentes – caso da Hypermarcas e Banco PanAmericano no Corinthians, com Ronaldo Nazário e Roberto Carlos.
Que Robinho não me ouça ou leia, mas ele, dentre os jovens do Santos, também é um veterano. Certamente, sua presença no elenco teve influência decisiva no contrato da Seara.
Na vida toda, estamos sempre buscando referências: de vida, pessoas que nos iluminem os caminhos, gente que já tem os calos, sabe os atalhos, conhece as armadilhas. Gente que nos faça ver a vida sob outro ângulo, entenda o sentido da vida, para onde vamos e de onde viemos. Também estamos sempre buscando quem nos deixe a vida com mais significado e beleza. Ícones, enfim. Vai daí o grande sucesso das marcas de produtos no mercado consumidor. No futebol, não seria diferente. Queremos gente que seja do ramo, tenha as canelas marcadas pelas pancadas da vida, mas, principalmente, que saiba fazer. Do ramo.
Do ponto de vista de negócios, são alavancadores. Noutro dia, conversava com um diretor de uma das grandes marcas de material esportivo e ele me dizia que esses fenômenos são como ímãs de negócios. Vendem – e muito.
Numa sociedade que está obcecada pelo novo e por manter-se novo (botox, silicone, plásticas em geral), é muito bem-vinda a presença dos coroas. Trata-se de uma revalorização da experiência, dos cabelos brancos, dos pés-de-galinha. Porque o avanço da idade não dá só cabelo branco e barriga, como eu costumo dizer. Dá um pouco mais de sabedoria. E a verdadeira sabedoria é o grande desafio das nossas vidas.

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