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A intenção e o gesto

Entre a intenção e o gesto, há uma zona de silêncio em que palavras são quebradas, pactos são rompidos, promessas são desfeitas, gafes são …

Entre a intenção e o gesto, há uma zona de silêncio em que palavras são quebradas, pactos são rompidos, promessas são desfeitas, gafes são cometidas, micos celebrizados e poças de leite derramado aumentam seus volumes líquido, com a inclusão das lágrimas que são deitadas sobre elas. É inútil dizer que não se deve chorar sobre o leite derramado, pois lágrimas não são metais que se fundem. Engraçado, fiquei com uma impressão que acabei de dizer algo que não faz o menor sentido. Bem, o importante é vocês entenderam.

A intenção, em seu nascedouro, surge verdadeira, emanada de boa índole. Nasce livre de juízos e condicionantes. Suas substâncias contêm algo de altruísmo, de alguns ideais sufocados pelo cotidiano olho por olho, dente por dente. Por exemplo: esta quarta-feira, pensei em me voluntariar para dar aulas de violão no Grupo Escola Aberta, da comunidade da Vila Maria Degolada. Não fui. Tinha jogo do Inter, e depois surgiu uma campanha nova, depois viajei a negócios, depois, não sei. A intenção foi boa. Mas faltou alguma coisa para se consumar no gesto. Não mudei de ideia, só adiei.

A gente encontra um casal de amigos, nos beijamos, nos abraçamos e confessamos a saudade reprimida e revelada no encontro ocasional. “Pra semana vamos fazer uma janta?”. “Claro que sim!”. “E vamos avisar o Eduardo e a Rita?”. “Mas, sem dúvida, eles são a cerejinha no bolo” – e a gente conversa um pouco mais e se despede sem marcar o dia e a hora da janta. A intenção surgiu no calor da emoção, límpida, alegre. O gesto não se consumou; ele foi envolvido pela névoa da indecisão, do “deixa pra lá”. Um deixar pra lá implícito e consensual, que feio, que triste.

Além da boa e das segundas intenções, ainda existe a outra, a má intenção. É quando alguém me dá uma fechada no trânsito e eu dou um toque na buzina. Um toquezinho de protesto. O grosso então levanta somente o dedo médio para me causar uma ofensa grave, o mal intencionado. Quando o sinal fechou nossos carros ficaram lado a lado. Então eu saio do meu, de chofre abro a porta do seu carro e arranco o sujeito para fora. Em seguida, com as extremidades dos dedos polegar, médio e indicador, exerço uma pressão equivalente ao peso de uma viga de concreto sobre um sensível nervo que corre acima do seu omoplata, próximo a uma vértebra cervical. O sujeito cai de joelhos, berrando de dor enquanto eu digo: – Pede desculpa, safado. Pede desculpas. Ele pede desculpas, chorando e humilhado.

Quando nossos carros ficaram lado a lado no sinal, eu não saí do meu. O sinal abriu e o sujeito foi embora. Eu não faço a menor ideia como se faz para tocar no tal nervo de modo a fazer um vivente desabar. O que fiz foi fantasiar aquela situação para sublimar a minha raiva e não fazer nada que pudesse me remeter de volta à barbárie, no mínimo por uma questão de sanidade mental. Imaginar a cena foi tão reparador que fiquei satisfeito. Safado. 

Autor

Paulo Tiaraju

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