Escrever o quê?
Nada de sol inclemente, afinal, todo verão ele é inclemente e, no Rio, só em ano de clemência será notícia.
O que não é de bom gosto – nunca – é esse “inclemente” ou “causticante” sempre que o sol está fervendo a cuca dos viventes. No resto do ano, o sol fica apenas sol mesmo, com o risco dos menos sensíveis chamarem-no de “astro-rei”.
De minha parte, astro-rei é a mãe.
Nada sobre as tragédias da serra fluminense, nem as de São Paulo, de Minas, de Santa Catarina, mas poderia escrever que, desde que os veículos de comunicação viraram mídia, insistem em desinformar, quando não, deseducar o povo.
Já me enfiaram, há muito, goela adentro Olimpíadas como sinônimo de Jogos Olímpicos e quem conhece a história da Grécia antiga sabe que Olimpíada era o período de três anos nos quais não havia os Jogos.
Isso não dá crônica, assim como o estupro que a Academia Brasileira de Letras perpetrou contra o nosso prosaico “etc.” -, do Latim et cetera (e coisas) – oficializando o uso de vírgula antes da estuprada, etc., etc.
Coisas como essas aconteceram como acontecem agora quando a quase totalidade dos meios de comunicação registrou que a atual tragédia fluminense é a maior de todos os tempos, em todo o país.
O jornalista Ivan Lessa tornou famosa a frase ao afirmar que, de cinco em cinco anos, o Brasil perde a memória. É o caso. Na Serra das Araras, na altura de Piraí, RJ, num cemitério improvisado pela natureza estão mais de 1.400 cadáveres, além dos outros 300 insepultos do soterramento provocado por um temporal em janeiro de 1967 que, inclusive, enterrou ônibus, caminhões e carros jamais localizados.
Não vou escrever sobre isso e muito menos que toda a minha família, inclusive eu, descemos de Nova Friburgo – onde passamos o réveillon – dias antes da tragédia.
Não vou escrever sobre o cacoete ridículo de colunistas de TV, no Rio, que, quando a audiência de uma telenovela passa dos 50%, dizem que foi recorde. Dezenas de telenovelas, há décadas, quase nunca tinham, diariamente, médias de audiência inferiores a 60%. E algumas, na base do “quem matou fulano” tinham o último capítulo acima dos 90%. Dá para brincar com essas desinformações? Não consigo. E foi num jornal que um colunista de TV avisou que as telenovelas estavam com os dias contados. Isso foi há cerca de 14.600 dias.
Terça-feira, 25, O Globo publicou: “Um homem foi morto ontem, após manter duas mulheres reféns numa casa na Favela do Muquiço, em Guadalupe. Cizilia Maria dos Santos de 77 anos, e a filha, Ana Maria, de 48, ficaram sob a mira de um fuzil, por três horas, até que homens do Batalhão de Operações Especiais invadissem a casa. O bandido, identificado como Cowboy, tentou fugir pelos fundos, segundo a polícia, mas, ao pular a janela, foi cercado por homens do 9º BPM. Ao reagir, foi baleado”.
Já que um dos papéis do jornalismo é informar, pergunto: Cizilia e Ana Maria negaram ao repórter a informação sobre o que queria o pobre Cowboy? Se negaram, isso é notícia. São surdas-mudas e analfabetas? Beleza de notícia!
Como hoje está na moda os jornais mandarem o leitor ler mais sobre um assunto num blog, esqueceram-se de colocar “leia no blog X o motivo do indigitado fazer as duas reféns”.
Como quero ser moderninho, leia mais no meu blog: hein ou heim?
Inté.
Vitrine (comentários dos leitores)
Pai, eu também sempre encontro respostas na poesia. Mesmo quando acho que ninguém mais entende o que sinto.
Adorei a crônica. Beijos! Rachel Almeida, jornalista, Rio
Salve, Mário, leitor assíduo de suas crônicas saborosas e (claro) inteligentes, me declaro um péssimo correspondente porque nunca me manifesto. Mas, você já recebe tantas respostas que sempre acho que mais umazinha é desnecessária.
Hoje o Jatobá me ligou e perguntou por você, se tinha seu telefone etc. Falei das suas crônicas e ele quer entrar no seu mail. Copio os dois. Jatobá, tenho a honra de te apresentar ao Mario de Almeida. Beijos para todos. Galileu Pizarro, publicitário, Rio.

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