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Peru na mesa e sinos badalando

“… nunca procures saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.” John Donne Do peru e de outras vitualhas Um dos mais …

“… nunca procures saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”

John Donne

Do peru e de outras vitualhas

Um dos mais celebrados textos da literatura brasileira é o conto de Mario de Andrade: O peru de Natal. Merece, tão bom quanto o peru que faz jus ao seu sacrifício natalino.

Natal: peru nas mesas e as badaladas nos ouvidos. Os sinos, entre as muitas lendas que cercam a maior festa da cristandade, ganharam a crença que suas badaladas natalinas espantam as coisas ruins e ajudam a transformar a data num alegórico céu de brigadeiro.

Na origem do peru, astro do Natal, nada de “Oropa, França ou Bahia”. Na verdade, o bicho era iguaria dos astecas e, pois, mexicano.

Chegado ainda no século 16 na Europa, quando ainda se supunha que a América era as Índias, a nobre ave, além de estranha aos olhos dos franceses, era lá conhecida como galinha da Índia. Por isso, hinde é, na França – como comestível – feminino. O macho é dindon.

Suposto, na Inglaterra, como de origem turca, virou turkey (peru em inglês). Batizado pelos portugueses de Peru, então como chamavam toda a América espanhola, a ave é conhecida no mundo por um monte de suposições erradas.

A estreia do peru como prato comemorativo aconteceu em Plymouth, EUA, acontecimento de 1621, numa ação de graças. Séculos depois, já o maior feriado dos EUA – Thanks Giving – é oficialmente comemorado na penúltima quinta-feira do mês de novembro. E passou, também, a ser cultuado no Natal e, no caso das aves criadas ou compradas vivas, embriagado com bebida (cachaça no Brasil) para amolecer a carne.

Nem o chester, arranjo genético da galinha da espécie gallus gallus, superalimentada com hormônios, uma ave “fabricada” para ganhar  70%  de carnes nobres, nem suas congêneres, nem tender ou pernil, nem o bacalhau, alimento de pobre que nos meados do século passado ganhou no Brasil, pelo preço inflacionado, status de coisa de gente abonada, conseguiram destronar o peru do seu poleiro de astro do Natal. Tradição é tradição e, em nome dela, amêndoas, avelãs, castanhas e nozes importadas empanturram os sobreviventes do calor dos trópicos.

Quanto aos sinos, eles soam na canção e na poesia do mundo com extrema sonoridade e estão impregnados na memória de muitos e festejados poetas da língua portuguesa. Algumas referências:

Fernando Pessoa

O sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro de minha alma.

A cada pancada tua,

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto a saudade mais perto.

Carlos Drummond de Andrade

Natal.

O sino longe toca fino,

Não tem neves, não tem gelos.

Natal.

Já nasceu o deus menino.

Manuel Bandeira

No pátio a noite é sem silêncio

E que é a noite sem o silêncio?

… A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos

Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos

De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.

Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos

Sinos

Quantos sinos!

Eu queria também escrever um poema de Natal

Mas o poema não saía…

Meio que com pressa provoquei

– Então, não vai sair?

– Ano que vem, talvez…

Leitor (a) – Feliz Natal e que nele se juntem mesa farta e emoções gratificantes.

Fiquemos com Drummond:

“Tudo, no coração, é ceia”.

Inté.

 

Vitrine (Comentários sobre crônica anterior)

A vida sopra entre este verso de Quintana: “Da primeira vez que em que me assassinaram, eu perdi um jeito de sorrir que eu tinha” e o de Cecília Meireles: “Aprendi com a primavera, a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”. Depende do dia! Beijos, adorei a crônica. Rachel Almeida, jornalista, Rio

Mestre Mario. Sábia maneira de ver e viver a vida. Mais uma cereja no seu bolo.

Abração! Carlos Eduardo (Freitas da Cunha), professor, Florianópolis.

Amei!!! O jogo do contente, aliado a viradas na hora certa, tem sido a minha vida. Viver é levantar, sacudir a poeira e ir em frente… Beijos. Aparecida Schneider, empresária, Rio.

Prezado Mário, por acaso, a coluna do Jabor inicia: “O prazer pode nos dar culpa, e a culpa pode nos dar prazer. Os masoquistas sabem disso: todo prazer será castigado. Por isso, muitos preferem o doce sentimento de culpa, porque, se somos castigados antes, podemos ruminar sem medo o nosso vazio…”

O fato é que é melhor, como sentenciado pelo Vanzolini: levantar, sacudir a poeira e dar volta por cima… Abraços. Aderbal Moura, executivo, Rio

Grande tio!!! Magnífico, como sempre! Adoro o jeito como escreve: objetivo, interessante, informativo e, muitas vezes, com um fino toque de humor… Adorei as “analogias” e, principalmente, as “dicas”. Ah! Também dei boas risadas c/ o “ataque amnésico” do meu irmão, Carlos. Grande beijo! Michele Freitas Benkendorf, Florianópolis.

Polyana – “Tio, o vovô Eduardo, seu pai, foi quem nos deu este livro da Polyanna e gostava que a gente fizesse o jogo do contente. Confesso que não consegui por muito tempo. Sua coluna de hoje me trouxe recordações deliciosas. Beijos da Neguinha” (Ruth Negrini), São Paulo.

Caro Mano. Gostei muito desta crônica. Sempre usei Polyanna, assim como Vandré. Estou gostando muito do livro, já passei da metade. Um feliz Natal para toda a tribo. Pelo parentesco com você e mais o nosso avô, estou quase virando gaúcho, tchê. Um abraço, Coelho (Eduardo Coelho Almeida).

Autor

Mario de Almeida

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