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O Rio Grande maltrata os seus talentos

Aos poucos, foram produzindo um trabalhocom cara de área de lazer, um lugar impessoalonde ninguém goza, nem sofre. Quando o assunto é talento, as …

Aos poucos, foram produzindo um trabalho

com cara de área de lazer, um lugar impessoal

onde ninguém goza, nem sofre.

Quando o assunto é talento, as reações são as mais inesperadas, vão do constrangimento à indiferença. Mas quando o talento está associado à disciplina e ao trabalho, quase sempre acaba em aplausos e contagiante reconhecimento. São muitos os homens e mulheres, músicos, escritores, jornalistas, cineastas, atores, atrizes, artistas plásticos, publicitários e jogadores de futebol que se lançam em profissões de grande exposição midiática de desempenho, na esperança de se tornarem celebridades, embora poucos sejam reconhecidos. Não basta apenas gostar de uma profissão cujo combustível é o talento. Para ser um dos seus protagonistas, é preciso “ter” o tal combustível. Quem gosta de Fórmula 1, por exemplo, sabe que o Nakajima é coadjuvante. Para ele, já está bom só o fato de estar na pista.

Mas, nem sempre a pessoa dotada de grande talento dá certo. Pelo menos aqui no Sul, um velho sumidouro de gente talentosa, com raras exceções. O Rio Grande sabe paparicar os seus artistas, desde que eles se apresentem no Galpão Crioulo. Fora do Galpão Crioulo, a vida por aqui é uma madrasta cruel com os artistas gaúchos.

Quando jovens, os artistas explodiam, como um vulcão, ao lançarem nas alturas o brilho dos seus talentos. Com o tempo, perceberam que nada acontecia e foram adaptando suas produções na forma rasa do gosto gaúcho, na mesmice do molde medíocre. Aos poucos, foram produzindo um trabalho com cara de área de lazer, um lugar impessoal onde ninguém goza, nem sofre. Eles, que ardiam de paixão e sonhavam alto, foram ficando tristes e mediocrizados. Não cito nomes porque, pessoalmente, gosto muito desses caras. São tremendos músicos. Tivessem ido para Nova Yorque, estariam no estrelato internacional, como Elis, que teve o insight que devia se mandar, se mandou e conquistou a admiração e o respeito do mundo.

E por que a música de Caetano, de Gil, de Milton Nacimento, de Elbinha, de Zé Ramalho, de Alceu Valença, de Ivete (fenômeno), de Paulinho Moska, de Lenine, de Zeca Baleiro, de Chico César, de Zé Renato, mineiro maravilhoso, por que a produção do norte e do nordeste desce Brasil afora e faz um tremendo sucesso? Porque é alegre, é criativa e brincante.

Por que a produção gaúcha não sobe? Mágoa. Com exceção dos nossos jogadores de futebol, e dos participantes do Galpão Crioulo, grande parte dos nossos artistas foi ferida de morte em sua autoestima. O Rio Grande e o povo gaúcho desprezam qualquer forma de arte que não seja de fácil assimilação. Como crianças, só aceitam papinha. Papinha impressa, papinha no palco, papinha televisiva, papinha musical, e, como a propaganda acompanha as tendências, dê-lhe papinha na propaganda também.**

* Esta semana, a Escala Propaganda quebrou a regra e foi exceção com sua campanha para o Detran, com o tema adesivos da família. Simplesmente genial. Parabéns, criação, parabéns, Escala, tem vida inteligente na querência. * E já que estamos no assunto, parabéns ao grande Cesar Paim pelo título Publicitário do Ano.

Autor

Paulo Tiaraju

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