“José e Pilar” é um dos melhores documentários que já assisti, por seu duplo valor: mostra com narrativa quase poética uma das mais belas histórias de amor, possível entre um homem e uma mulher, contra todos os prognósticos preconceituosos. Não se pode duvidar da devoção quase cega de Pilar. Esta é uma daquelas histórias em que a admiração transcende a obra e aproxima-se da veneração pelo autor, e, sorte grande para ambos: a convivência com o homem não desgastou a idealização que ela fez dele. Este é o segundo valor e crédito de José Saramago. Não bastasse seu fôlego e talento, ele foi uma fortaleza em todos os sentidos. Tanto para arcar com o ônus do prêmio universal, como para suportar as pequenas misérias do cotidiano. Não queira ganhar um Prêmio Nobel de Literatura aos 85 anos de idade. É um inferno. A maratona de viagens e compromissos quase o levou a morte.
Eu já havia lido “Ensaio sobre a cegueira”, “A intermitência da morte”, “Jangada de Pedra” e “Bagagem do viajante”, portanto, não imaginei outra atitude para ele durante as filmagens. Nas brechas de sua conduta responsável – afinal, era um portador de um Nobel –, surge o português bem humorado, com alguma acidez, mas longe da melancolia própria da idade. Ao comentar com um grupo de amigos seu encontro primevo com Pilar, diverte-se em dizer que, quando ela ligou pedindo uma entrevista, achava tratar-se de mais uma daquelas jornalistas chatíssimas, pródigas no filme. Mas quando viu a “rapariga” pessoalmente, diz: “Péra lá pá, aqui tem algo diferente” – encantado com as formas e a beleza da “gatinha” Pilar. Mas fala tudo isso com cara de sem vergonha.
A surpresa do filme é Pilar. Chamá-la somente de inteligente seria muito limitante. Pilar é sensivelmente articulada e inserida com o meio, em especial, no ambiente profissional de José, em que lida com destemor com as ameaças e as oportunidades que pairam sobre o escritor. É premonitória, fala com paixão e absoluta segurança, sobre tudo o que pensa, e sobre todos, na frente das câmeras, ou longe delas. Foi talhada para defender com unhas e dentes o escritor sob o massacre do assédio, muitas vezes meramente oportunista. Após a doença de Saramago, disse com todas as palavras: “Estamos pagando a fatura da agenda desumana que cumprimos, outra como aquela, vão ter que passar por cima do meu cadáver”.
Sem Pilar, arrisco dizer que José teria morrido muito mais cedo. Se tivesse sobrevivido, bem provável teria naufragado num mar de detalhes práticos e enfadonhos, nos redemoinhos traiçoeiros da agenda internacional.
Lembrei de um trecho de outra crônica que publiquei, e acho que ele cairia com uma luva para José, e para todos os homens de boa vontade que, em definitivo, entregam suas vidas para a mulher que os ama:
“…e quando a noite vem, mesmo para um homem autoiluminado, só mesmo a presença feminina para acalmar os seus sentidos e povoar os seus desertos. Só mesmo uma mulher para mitigar a sarna do pensamento masculino, o vício do raciocínio e a perseverança de temores primordiais. São eles que nos fazem assim, tão sedentos de vinho e da generosidade feminina. Não por acaso, corações de mães e o nome da mulher amada, estarão tatuados, para sempre, na pele dos marinheiros, dos encarcerados e dos loucos de solidão.”

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