Colunas

Flanando pelas lembranças

Rio de Janeiro, Distrito Federal. 1949. A antiga corte imperial desde 15 de novembro de 1889 era a capital da República dos Estados Unidos …

Rio de Janeiro, Distrito Federal. 1949. A antiga corte imperial desde 15 de novembro de 1889 era a capital da República dos Estados Unidos do Brasil e, como tal, sede dos três poderes do país. Foi quando conheci a Cidade Maravilhosa.

O presidente da República era o Marechal Eurico Gaspar Dutra, eleito em dezembro de 1945, após a deposição de Vargas como ditador. Há dois anos, era viúvo da beata Carmela Dutra, apelidada de Dona Santinha, que entrou na história do país por haver conseguido junto ao marido a proibição dos jogos – cassinos e bicho – e a colocação do Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade. Os decretos foram pleitos vitoriosos do então arcebispo Dom Jaime Câmara e conseguidos através da Primeira-Dama.

Quanto ao jogo do bicho, que não acabou, passou à clandestinidade (nem tanto) e a pagar muito menos aos acertadores, pois a contravenção, para funcionar, tem que molhar as mãos de quem permite. E haja mãos!

Conheci o Rio, o Zoo, motivo da criação do jogo do bicho, o Teatro Municipal, o edifício do Ministério da Educação e Saúde, pioneiro da arquitetura moderna do Brasil, hoje Palácio da Cultura, a Confeitaria Colombo, o Teatro Municipal e no distrito carioca da ilha de Paquetá, completei, em 9 de julho, 18 anos. Dia de sol e noite de luar em meio a um céu estrelado. Como estávamos acampados numa praia sem iluminação, a noite, em si mesma, era um festival de luzes (tempos depois, em Porto Alegre, eu estava numa festa, quando uma prenda amada telefonou para dizer que eu olhasse o céu, ocupado por uma lua cheia gigante. Suspiros). Creio que foi em noite igual que explodiram na cabeça de Bilac os versos daquele festejado soneto:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

Naquele 9 de julho, feriado paulista por conta da Revolução Constitucionalista de 1932, Benedito Costa, o Bibi, meu primeiro diretor de teatro e amigo até a morte, largou seus afazeres em São Paulo e foi a Paquetá fazer a bacalhoada dos meus 18 anos. Por coincidência, éramos 18 desfrutando férias escolares. Não éramos os “18 do Forte”, mas 18 jovens fortes carregando nossos pesados balaios de esperança, olhando o futuro com otimismo e fazendo do presente uma festa quase permanente. Desde jovem (como faz tempo!), carrego esse meu jeito gaudério de acreditar que tudo vai dar certo, mesmo porque a vida é um jogo que se joga pra ganhar. Éramos um grupo fraterno que acampava nas férias e sempre nos feriados emendados nos finais de semana.

Paquetá, cenário de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, o livro que inaugurou o Romantismo nas letras brasileiras, é uma pequena ilha num pequeno arquipélago esparramado na Baía da Guanabara, com cerca de cinco mil habitantes. Há, em Paquetá, em praça pública, uma escultura de golfinhos, lembrando que eles recepcionavam a gente na chegada das barcas à ilha. Era um momento de confraternização com aqueles saltimbancos aquáticos que davam as boas-vindas aos forasteiros.

Paquetá mantém uma tradição qualitativa para nós que somos vítimas do caos urbano imposto pelo automóvel. Veículos terrestres a motor, só carro de bombeiro e utilitários necessários à saúde e ao abastecimento. Charretes e bicicletas suprem a necessidade de locomoção, pois não há na ilha grandes trajetos.

De minha parte, colaborei com os propósitos de Dona Santinha quando, uns 13 anos depois de conhecer a capital do país, fui à praia de Cassino, na cidade de Rio Grande e, como chefe de reportagem da Última Hora gaúcha, mais um fotógrafo, fizemos a matéria que obrigou a polícia a fechar o cassino daquela praia.

Ingrata, Dona Santinha me transforma em contraventor toda vez que jogo na centena 312, endereço do nosso antigo Teatro de Equipe, na Rua General Vitorino, Porto Alegre.

Inté.

Em tempo:

312 é a centena do burro

 

Vitrine

Infelizmente a minha última coluna sobre notícias e manchetes inusitadas chegou mutilada para muitos leitores do meu cadastro pessoal. Assim mesmo recebi do amigo Gustavo Borja Lopes, aqui do Rio, TV Brasil:

“Mario, acabo de ler tua coluna, numa pausa para reciclagem aqui no trabalho. Genial esse causo do “Fonseca Puto”! Me fez lembrar um causo muito parecido, que me foi contado pelo amigo-fotógrafo-gaúcho Flavio Damm:

O Correio da Manhã, comandado por Niomar Muniz Sodré, enfrentava muitas dificuldades naquele final de anos 60. Os salários estavam atrasados. Uma certa noite, surge no teletipo um despacho urgente da UPI: o General Giorgios Papadopoulos acabara de dar um golpe de estado na Grécia. O redator de plantão escreveu a matéria, encerrando-a com a seguinte pérola: “Em discurso dirigido ao povo da Grécia, conclamou o General Papadopoulos: – ‘Dona Niomar Muniz Sodré, pague os atrasados de seus funcionários!’”.  Reza a lenda que passou por todo mundo e tudo foi publicado…“

Dos comentários perdidos está o do José Monserrat Filho, atualmente em Brasília, contando que, em 1956, cobrindo uma manifestação contra Luiz Carlos Prestes para a Folha da Tarde, foi surpreendido por uma frase negativa de algo que não houvera e nem ele escrevera. De minha parte, como o Mon era muito jovem, tenho quase certeza que o mau caráter enxerido, para o bem da imprensa brasileira, já se foi atazanar o Diabo.

Sobre o assunto da crônica anterior – manchetes inusitadas – o sempre amigo José Carlos Pellegrino avisou de São Paulo que gostaria de ler que Jader Barbalho e Sarney suicidaram-se. Eu acrescentaria Maluf nesse kit da felicidade.

Lembrei-me da manchete de um pasquim paulista sobre o gesto do cantor e compositor Sérgio Ricardo jogando o seu violão na plateia de um antigo festival de música: VIOLADA NO AUDITÓRIO.

Autor

Mario de Almeida

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.