Colunas

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos

Quando surgir um risco luminoso no céu noturno, feche os olhos e faça um pedido, de todo o coração.Se pedir com fé, a ilusão …

Quando surgir um risco luminoso no céu noturno, feche os olhos e faça um pedido, de todo o coração.Se pedir com fé, a ilusão de um encontro amoroso, de uma hora para outra, com alguém que vai ficar com você para o resto da vida, vai se realizar. O filme começou com esta pérola que beira a sacanagem, ao fazer pouco caso das pessoas românticas, crédulas e de boa fé.

É a primeira vez que assisto a um filme de Woody Allen, tão díspar dos loucos e maravilhosos padrões da sua trajetória. Me pareceu que, desta vez, ele lida com imaginário coletivo, num plano mais classe média baixa, digamos. Mas é um legítimo Woody Allen, (sem dúvida), com o seu brutal pessimismo e seus clichês encantadores. A gente gosta, como gosta de um velho disco vinil, que já ouvimos por uma vida inteira e nunca nos cansamos.

Como sempre, Woody Allen espia para dentro das nossas mentes sujas, e demonstra que as ilusões erotizadas de cada um, são bem mais poderosas do que as pessoas físicas que vivem embaixo do mesmo teto. A cena de voyeurismo do escritor, (falido e que parasita a grana da sogra), por exemplo, é magistral. Como ele fica em casa durante o dia, passa a espionar a vizinha de janela, por quem se apaixona. Mas, depois, quando está no apartamento da vizinha, vê do outro lado sua própria esposa em roupas íntimas. Como uma compulsão irrestível, neste momento ele é tomado por um tesão tão avassalador que se obriga fechar a janela, pois não suporta mais ver a cena. Ou seja, quando o objeto escapa de seu absoluto controle, passa a ser mais cobiçado.(pergunte aos homens).Aliás, querendo, basta um terapeuta ali da Rua Tobias da Silva publicar um livro com tudo que ouviu no consultório, com nomes fictícios, para vermos que Porto Alegre não deixa barato para Nova Yorque no ramo das neuras e da sexualidade “criativa”. (Me segurei como pude para na cair na tentação de escrever rua “Fobias da Silva”).

De volta ao filme, é uma bela estória, de impecável produção com locação em Londres. Mas algo não deu certo. Tive um golpe de intuição,bem fininho,e,de acordo com ele, o velho Woody está ficando sem fôlego. Como sempre, desenvolveu o fio condutor com maestria, e depois desdobrou, caso a caso, as engraçadíssimas tragédias multifacetadas.

Mas, quando nos fez sentar mais eretos na poltrona, quando jogou pimenta e soda cáustica na trama toda, encerrou o filme sem dar explicação. Isso não se faz Ernesto.A gente, lá dentro daquele caldeirão de desejos transgressivos e efervescentes, em que todo mundo quer comer todo mundo. E, súbito, acabou. As luzes se acendem. As pessoas ficam mais um minuto sentadas. Ninguém sai, ninguém diz nada.

Ou, que sabe, mais uma vez ele embaralhou as vidas e os sonhos, as ilusões e as neuroses, tudo para nos mandar uma mensagem cifrada, segundo a qual, metade dos nossos sonhos e ilusões é feita de enganos, autotrapaças e indulgentes mentiras. A outra metade, é a única verdade que dá sentido para a sua vida. Mas para você saber qual é a metade certa, precisa viver as duas com a mesma intensidade. Assim, vejo o cineasta perder aquela aura de artista iluminado pelas boas intenções, e sair de cena retorcendo o corpo, como um Coringa, às gargalhadas.

Autor

Paulo Tiaraju

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.