Foi a passagem do tempo que me trouxe um imenso benefício pessoal, quase um poder desconhecido. Aprendi que é possível, por um momento, sair do meu ego, sair das minhas miudezas viscerais (ou domésticas), da vaidade velada que a gente insiste em dizer que não tem, da minha roupagem emocional, que é sempre sob medida, e, por um espaço de tempo, entrar na pele do outro. Seja quem for este outro, contanto que não seja um psicótico, um delinquente ou um perverso. Enfim, sair de nossa pele, eventualmente, expande a sensibilidade, amplia os sentidos e nos sintoniza com a consciência coletiva, humana e universal. Entrar na pele do outro nos candidata a nos tornar seres humanos de melhor qualidade, mais próximos da compaixão, menos mergulhados no círculo vicioso do eu, eu, eu. Entrar na pele do outro, contudo, não é o que se pode esperar de adolescentes, ou de adultos perversos.
E aqui surge o manifesto das lágrimas. Nada nessa vida é capaz de dissolver as resistências mais graníticas do que as lágrimas de um semelhante. Chora-se num enterro, mesmo sem ter vínculo algum com o defunto, pelo simples fato de ele ter sido parente dos nossos amigos, que estão ali, ainda vinculados, em prantos, inconformados. Nada nos enternece, e nos comove tanto, como ver o choro que deságua finalmente, o choro dos pobrezinhos, o choro dos fortes, o choro dos bravos, ou o choro dos inocentes.
As lágrimas de Dilma não tinham a menor possibilidade de verterem por viés ideológico (ou partidário), assim como não foi um choro de alegria, de fato, não faz sentido, tratando-se da personalidade de Dilma Rousseff. Entender que seu choro revelou a sua e a nossa natureza humana é semelhante a ouvir estrelas. Mesmo não sendo explícito, quase todas as pessoas de boa índole sabem ouvir estrelas. Os alienados, com o tempo, se tornam surdos, quando não ficam cegos pela irracionalidade.
Ela não sentiu medo quando se passaram seis meses sob os holofotes do mundo? Não sentiu solidão quando acordou de madrugada e se deu conta da magnitude e da aspereza da missão? Dos embates, dos debates, das viagens, do cansaço, do peso, da barra em se responsabilizar pelas vidas de 190 milhões de brasileiros, diante da nação e do planeta? É pouco? Tudo isso não mexe com os nervos? Não põe as lágrimas nas bordas dos olhos? Seis meses encouraçada para assegurar o raciocínio límpido, para dizer a palavra mais certa. Isso não vai minando as emoções? Até mesmo quando foi declarada vencedora pelo TRE, a couraça manteve-se cingida, congelando seu coração.
Súbito, a couraça desprendeu-se e Dilma chorou. Seu choro foi falso? Não teve nenhum motivo verdadeiro para chorar? Quem sabe, naquele momento em que o país e o mundo reconheceram sua vitória, a presidente não teria chorado ao lembrar de sua luta solitária contra o câncer que venceu? Ou, talvez, lembrar do choque elétrico e das porradas que tomou nas sessões de tortura por que passou. Quem sabe teria lembrado da campanha virulenta de que foi alvo, ser acusada de assassina de crianças, ela, mãe e recentemente avó.
Novamente a juventude fascistinha foi para a internet mostrar seu inconformismo, agora sob alegação que Dilma fingiu aquelas lágrimas. Ora, a então candidata passou 6 meses na frente das câmeras. O Brasil inteiro é testemunha que o talento de Dilma é escasso para a dramaturgia e para encenação. É tão escasso que mal deu para o diretor de cena arrancar da candidata uns parcos sorrisos amarelos durante as gravações. Dilma Rousseff, chorando de modo fraudulento, como foi dito, nem a pau, Juvenal. Nem que chova o leite mau na cara dos caretas.
Finalmente, a Presidente pôde chorar. Livre, justa, autorizada pela aclamação popular, pela urgência dos sentidos, pela vastidão daquele momento histórico, Dilma chorou. Não entender algo tão cristalino como este fato é não entender o básico da vida, mesmo que este básico fique mais acima, e mais além daquelas convicções sacadas do umbigo, na cegueira da raiva, na miopia da querência.

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