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Onde habitou o medo, habita o ódio

Marta Ferreira Santos Farah é filha da Célia, minha irmã que morreu há dois anos na data na qual escrevo, dia 5 de novembro, …

Marta Ferreira Santos Farah é filha da Célia, minha irmã que morreu há dois anos na data na qual escrevo, dia 5 de novembro, meses depois em que festejou 80 anos bem vividos e bem festejados.

Marta, socióloga como a mãe, é a minha primeira sobrinha e a embalei bebê, antes de mudar-me de São Paulo para o Rio.

Ontem à noite recebi dela o e-mail abaixo:

Tio Mario,

Soube há dois dias da morte de Lara.

A Ruth (prima dela) me contou.

E me mandou agora o texto em que você conta que ela morreu.

Mas ainda não escreveu sobre ela. Acho que não deu, não é?

Sinto muito.

Lembro-me bem dela, sabe?

De quando eu e o Ruy (irmão dela) estivemos aí, quando eu tinha 15 anos!

Vocês ainda mantinham contato?

Ela morava no Rio?

E os filhos?

Marta, numa pergunta, respondeu por mim: “Mas ainda não escreveu sobre ela. Acho que não deu, não é?”

Sei, por mim mesmo, que é difícil referir-se à ferida, enquanto aberta. E Shakespeare, através de Mercúcio, explica que nem a cicatriz permite insensibilidade: “Ri-se da cicatriz quem nunca foi ferido”.

Minha mãe, meu pai, a irmã Célia, Chica (a mãe preta), Carmen (a madrasta), o sobrinho Ruy e o pai, os sogros, Nina e Otávio (pais adotivos), os “irmãos” Flávio Rangel, Piratininga, Cyro del Nero e o capo João Carlos Magaldi são apelos permanentes – e recusados – de passarem à condição de cicatriz.

Lara veio juntar-se ao mausoléu desses viventes que lembram a via que leva ao cemitério de Campinas, minha cidade natal: Avenida da Saudade.

Lara morava no Rio, em Botafogo e, de vez em quando, eu telefonava para ela. Deprimia-me, ela entrevada desde uma queda, confessava-me que só desejava a morte.

Seus filhos, Ivan e Paulo César, moram no Rio e Wanda, minha querida enteada, mora no interior da França, onde leciona Direito.

Estivemos todos juntos no ritual da cremação, mais o nosso filho adotivo – meu e da Lara – o Eloí –,  que reside em Porto Alegre e cuja filha chama-se Lara Almeida.

E, agora, uma confissão pessoal.

No golpe de 1964, tive que fugir de Porto Alegre, cidade que amo, soube que colocaram colega meu no pau de arara para dizer onde eu estava, fui furtado na venda do meu apartamento, tive que me hospedar com a irmã Rachel, pedir dinheiro emprestado ao cunhado Eugênio, tive que trabalhar e aprender muito para obter sucesso em novo ofício, levei 30 anos para escrever algo assinado por mim mesmo, soube dos amigos presos e torturados, mas nada me doeu mais que os 30 dias em que Lara foi detida e, durante aquele período, por indicação do advogado, ir todos os dias úteis ao antigo Ministério do Exército e pedir notícias da companheira ao coronel-chefe da Repressão no Rio.

Quando fui buscá-la num quartel do Exército, ela a quem disseram, entre outras coisas, que haviam assassinado o filho Ivan, estava destroçada, tornaram-na fragmentos de uma pessoa.

Ascânio Pedro Monteiro, meu guru, médico que exercita o Processo Autógeno, reconstruiu a Lara que conseguiu, ainda, reviver sua faixa da “alegria de viver”.

Lara deixou, em versos, seu testemunho sobre as páginas mais negras da história deste país em “Inventário do Medo” onde está

CELA – 6

A hora dos

capuzes negros

é a hora mais negra

dos prisioneiros.

Descer às cegas

pelas cascatas

apalpando paredes

adivinhando fissuras

Pisando superfícies

escorregadias

de sangue

e urina.

Às cegas.

Inté.

 

Vitrine (comentários sobre crônica anterior)

Mario:

Muitíssimo obrigado pelo aproveitamento de minha mensagem sobre a Lara. O mérito, em primeiro lugar, é dela. Nós fomos apenas seus coadjuvantes e admiradores de sua poesia. Um abração, Goulart (Antônio), jornalista, Porto Alegre.

Maneira bonita de se despedir da Lara. Vou buscar essa Antologia Poética onde houver. Sobre nosso livro, se pintar algum pedido de algum lugar do país, eu aviso. Não se deve frustrar leitor (a). E, antes do ano acabar, vamos nos brindar… Viva! Beijão, Léo (Christiano) editor, Rio.

Mario,

Em uma de suas colunas você disse que não gosta de escrever sobre política. É uma pena porque pode acrescentar cultura a este ‘setor tão empobrecido’ pela ganância e vaidade. E, que coisa linda o “Canto Breve”, da Lara de Lemos. Obrigada. Beijos. Circe (Aguiar), professora, Rio.

Prezado Mario

A urgente reforma política é algo que se impõe como absolutamente prioritária. Como pode a classe média sustentar milhares de políticos com seus altos proventos e privilégios, mordomias sem fim e pouquíssimo esforço? Temos de reduzir drasticamente o número de parlamentares de todos os legislativos, inclusive o de vereadores, bem como o excesso de assessores. Cada político que trabalhe individualmente e voto distrital em todos eles. Do contrário, eles – as saúvas – vão acabar com as nossas plantações e riquezas. Desculpe o desabafo. José Carlos Pellegrino, engenheiro, São Paulo.

Mario Querido: Excelente comentário para nos ajudar a “digerir” o resultado das urnas. Abração do cunhado. Francisco Cunha, engenheiro agrônomo, professor e escritor, Florianópolis.

Mario, nós dois sabemos que jamais seremos velhos. Você com essa magia, esse dom maravilhoso de escrever e de uma sensibilidade imensa! Parabéns, gostei demais da crônica… Excelente!!! Rita de Cássia, professora, Fortaleza.

Autor

Mario de Almeida

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