Gabriela não está inanimada, na pedra, coberta pela poeira do silêncio. Em nosso estranho pressentimento, defunta era a mãe dos outros, que se dizia, as sempre lembradas. A nossa não era lembrada porque nunca fora esquecida. Porque a Gabriela era um jorro de vida em espiral, como o quê, como vou dizer, não vem a ideia mais precisa. Era como se, por exemplo, a poesia de Gabriela pudesse ser orgânica, de pulsar e respiração. E assim, tivesse mãos que descrevessem no ar, e nos gestos, desenhos, luzes, cores, flores, aromas e estações desertas. Depois, corações desesperados que se encontram, depois calor e o beijo na testa.
Podia-se esperar o gosto da comida poesia, ilha de guisadinho no centro do purê de batatas, coberta por ovos estrelados, meu Deus, nem se fala… Quem nunca comeu não sabe do que se trata. Mas tudo era pretexto para mais e mais poesia. Mesmo quando estava aqui, já estava na estrada, ou subia, subia, por causa do encontro da poesia com a natureza da intenção que se revela. Quando é tarde demais para prever o estranhamento, é tarde demais para estancar a hemorragia. A gente olhava, a gente ouvia, era a mãe, não…, era a poesia, quando, súbito, fazia chover dos seus dedos uma chuva de flores miudinhas. Ninguém falava, ninguém chorava, ninguém saía do carrossel. Dali só para fugir para dentro das folhas do Tesouro da Juventude, garantia de acordar dentro do sonho, ou, se necessário, abrir as cortinas, deixar entrar a luz do sol e desmoralizar os pesadelos.
Enquanto esteve de pé, ela deu o show, agora, sublime, não descansa, não sei onde anda. Vai ver, em algum lugar, em busca da aridez das coisas secas (sempre quis povoar os desertos), para depositar a umidade da palavra poética. É verdade, não conheceu a paz, não sei agora. Dizia não confiar em gente calada, não gostava de frio, nem de outros, polidos demais para o seu gosto.
No final de um dia ensolarado de abril, fui visitá-la na clínica onde se recuperava de uma crise hipertensiva. Estava muito quieta em uma cadeira de rodas, me pareceu adormecida. Toquei-a, chamei por ela: mãe, mãe. Ela abriu os olhos, abriu ainda mais e disse: meu filho, eu estava te esperando. E morreu.
*Gabriela Souza Barquett nascida em Porto alegre, fez vestibular para medicina, mas desistiu. Mudou-se para São Paulo onde permaneceu três anos trabalhando no jornal Última Hora, de Samuel Wagner. Em seu segundo casamento (casou com o pai do Guga), tomou o sobrenome Barquett. Posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro onde, durante 15 anos, participou de importantes movimentos literários na Livraria Passaradas de Aníbal. Teve vários dos seus textos e poemas publicados no jornal O Fluminense e no Opção.
Ao retornar a Porto Alegre, voltou a frequentar o Grêmio Literário Castro Alves e a Casa do Poeta Rio-Grandense. Nunca lançou o seu livro para crianças Histórias de Januário.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial