Enquanto não decidirem se é Têmis ou Minerva
quem representa a Justiça, ela não se manifesta. (M.A)
Creio que a maior certeza dos paulistas que votaram em Tiririca é que, pelo menos ainda, ele não é corrupto.
Em outubro passado, mais de 3 milhões de eleitores, entre os 30 milhões do Estado de São Paulo, votaram em políticos provadamente corruptos, cujo líder é o inefável e notório Paulo Salim Maluf. Esse famoso cara de peroba declarou ter ficha limpa, mas não declarou o nome da papelaria onde a comprou. Maluf, deputado federal, não pode sair do Brasil, único país onde ainda não tem ordem de prisão.
Ele, Maluf, o notório fã dos “40 ladrões”, obteve mais que 400 mil votos. Não entendo como se inoculou e cresceu essa lepra moral em grande parte do país, onde multidões de eleitores ficaram insensíveis ao “rouba, mas todo mundo rouba”.
Eu não entendo mas o Tiririca, um sábio, entende. Ele qualificou sua votação como voto de protesto e ganhou do Maluf! Sem comprar ninguém.
Ano passado, por conta da ONG Transparência Brasil, soube-se, através de dados oficiais, que 42 dos 94 deputados paulistas apresentam algum tipo de pendência judicial – 44% do total. Suas fichas na Assembleia Legislativa apontam casos de improbidade administrativa, crime contra o patrimônio, compra de votos e até estelionato.
Agora, no Pará, Jader Barbalho obteve – para senador – mais de 1/3 de votos de todo o eleitorado e não será empossado pois sua ficha prossegue imunda. Só seus eleitores não sabiam?
A corrupção grassa, em todo o país, nas três esferas do poder: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Parte da população resolveu armar-se e, através das drogas e dos assaltos, defende o seu pão. Outra parte droga-se, é assaltada, assassinada e, desse caldeamento de ativos e passivos, a Vale do Rio Doce consegue extrair o maior faturamento de sua história e prova, pela sua atual trajetória, que os críticos de sua privatização entendem de corporativismo, mas não entendem de lucro. Os banqeiros tiram dinheiro pelo nariz, “e la nave va”, comentaria Fellini, enquanto Vittorio De Sica, exclamaria “Miracolo!”.
Terminado o 2º turno eleitoral, faço-me uma pergunta que, antes, poderia ser entendida como uma maliciosa provocação eleitoreira. Mas não, trata-se apenas de um formal exercício de Lógica.
O mensalão federal (PT) e os regionais – Minas Gerais (PSDB) e Distrito Federal (DEM) – tinham por objetivo comprar dos cooptados o apoio aos seus respectivos governos. Mas eles, em sua grande maioria, já não pertenciam aos partidos governistas?
Sem escrúpulos para enfiar merda pela garganta dos corruptos, seus executores resolveram passar talquinho na bunda dos esmerdeados?
Até hoje não foi julgado qual o cheiro que, afinal, vai sobrar desse episódio.
Quem viver saberá como anda o olfato da Justiça, seja ela Têmis ou Minerva.
Enquanto isso, Tiririca desagrava os insultados.
O jornalista Antonio Goulart, contemporâneo dos meus tempos de jornal em Porto Alegre, mandou um e-mail que me coloca de volta ao mausoléu dos poetas brasileiros, momentos tristes, mas sadios:
A Lara inesquecível – “Mário: Embora com certo atraso, quero me somar àqueles que estão evocando a lembrança de Lara de Lemos. Eu a conheci de perto, das suas frequentes visitas à redação da Revista do Globo, nos anos 60, onde trabalhei e onde publiquei poemas dela. Eu a lembro como uma mulher muito bonita, elegante e inteligente. Como poeta, sensível e perfeccionista no trato com as palavras e os sentimentos. Busco em minha estante a sua Antologia Poética, último livro seu editado em Porto Alegre. Dali recolho estes versos:
‘Canto Breve
Ouve em silêncio meu canto breve
e não perguntes se voltarei.
Voltam as nuvens? Retorna o vento?
Em puro-nada me tornarei.
Dá-me teus ócios, tua clara infância:
Velhos segredos desfolharei.
Seremos relva, seremos dança,
serei alteza, tu serás rei.
Teremos sóis, teremos luas
e muitas terras que inventarei.
Velejaremos antigas lendas
serás o barco, água serei.
Seremos dois (nada é tão belo)
em mil futuros te sonharei.
Mas não me queiras moinho ou pedra.
Em puro nada me tornarei.”
De uma coisa, Mario, nós dois temos certeza:
Lara não se tornará puro nada. Sua lembrança será sempre concreta.
Abraço,
Antônio Goulart
Inté.
Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de Antonio’s, caleidoscópio de um bar (Ed. Record), O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória (Confederação Nacional do Comércio), Confederação Nacional do Comércio –60 Anos” (CNC); co-autor, com Rafael Guimaraens, de Trem de Volta – Teatro de Equipe (Libretos); um dos autores de 64 Para não esquecer” (Literalis) e do recém-ançado Almanaque do Camaleão (Léo Christiano Editorial). Reside no Rio e há anos é diretor-editor de AciBarra em revista.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial