Os estrategistas de Serra decidiram subir em um ringue no segundo turno. Não passa por suas cabeças oferecerem para o eleitor um programa de governo melhor do que o de sua adversária. É notável que Serra deseja destruir a candidatura e a imagem de Dilma,e, para destruir, ele ataca, bate, joga lama e, com prazer, despeja o aborto em cima da cabeça de Dilma, como se fosse um balde de imundice, líquida e mau-cheirosa. Serra e a partidária revista Veja. Nesta circunstância, Dilma retalha e ataca também.
Há uns anos fui estrategista do marketing de uma candidatura para prefeitura, aqui, no interior do nosso Estado. O curioso é que esta eleição praticamente dividiu o bolo em três pedaços. Os candidatos largaram com um terço dos votos cada um, e foram brigar por um terço dos indecisos. A atmosfera predominante entre os dois terços foi a do ódio, o que não significa que os dois candidatos adversários se odiavam. Somente o adversário do meu candidato era quem estrebuchava de ódio. Sua estratégia foi o ataque do começo ao fim. E atacava com uma fúria desproporcional, assim como plantou boatos e fez distribuição de material apócrifo, com os piores insultos e mentiras virulentas. Perdeu.
Perdeu porque todos pressentimos, de modo improvável, a existência de um tecido delicado e onipresente que reveste todas as pessoas de uma comunidade. Este tecido é feito de alguma civilidade, mais, ou um pouco menos, de educação, uma dose de bom senso, uma fina intuição para captar as atitudes, mais do que as palavras, e uma imensa sensibilidade em que se tem compaixão pela parte que apanha, com o ultrajado, o desmoralizado, a vítima de bullying. E quando fica evidente que o agressor não hesita em destruir o adversário, unicamente por suas conveniências eleitorais sem nada oferecer além da derrota do oponente, a agressividade se volta contra o agressor, assim como a violência um dia ataca o violento. Isso porque, durante uma campanha eleitoral, o agressor exaltado subestima e rasga e pisoteia o delicado tecido da consciência coletiva.
No auge da campanha, nos momentos mais críticos, quando o meu candidato estava sob fogo cerrado e de todo o tipo de agressão e manobras embusteiras, o pessoal da coligação pediu uma reunião e exigiu que eu respondesse ao fogo inimigo com fogo.
Me mantive firme na convicção segundo a qual meu candidato deveria responder às ofensas com programas de governo, com fatos críveis da sua bem-sucedida gestão. Ganhamos com uma boa margem de segurança.
Caso Dilma decida somente atacar também, vamos ter um resultado absolutamente imprevisível. Caso Serra continue agredindo, e considerando que Dilma se mantenha apenas na defesa do seu programa de governo, talvez ela não imponha uma vitória fragorosa, mas vence. Com aquela estratégia, Serra vai perder para ele mesmo. Porém, caso Serra vença, Marina vai para o Gólgota da política basileira. Marina (me comovo) vai entrar para a História crucificada pelas esquerdas. E pela direita, que vai rir pelas suas costas e jogá-la no saco de guardar confetes.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial