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Minha imodéstia cobra cumprimentos pele ideia de haver criado “Vitrine”, um canal interativo desse velho envolvido com as letras e seus eventuais leitores. Às …

Minha imodéstia cobra cumprimentos pele ideia de haver criado “Vitrine”, um canal interativo desse velho envolvido com as letras e seus eventuais leitores. Às vezes, os comentários suscitados pela leitura da coluna esclarecem, iluminam, agregam novos conceitos e informações ao escrito e outras, corrigem vacilos aqui perpetrados em nome de uma memória careca igual a pneu muito quilometrado. Hoje, coluna e Vitrine estão fundidas e agradeço aos parceiros aqui presentes.

Grato, Mario, por mais esta saudade da Caetano de Campos. Embora, em 1947, já estivesse no 1º Científico do Colégio Estadual Presidente Roosevelt (Rua São Joaquim) que, a partir de 1948, passou a ter um curso noturno também na própria Caetano. Abs. José Carlos Pellegrino, São Paulo.

Pellê, abração.

Marião, gostei imenso. Lembrei das minhas paradas de 7 de setembro ao longo da Avenida João Pessoa, em

Porto Alegre, por onde passava o bonde e não passa mais, e onde tinha até uma Pira da Pátria,

removida depois de 1964, quando o povo e principalmente os moços já não desfilavam mais. Proponho que republiques o poema de Vinícius de Morais sobre a Pátria, patriazinha…

Monserrat, Brasília. 

Tô pensando, Mon… Abração. 

Mário, viva! Simplesmente espetacular essa lembrança de desfile cívico. Quero ver o nosso novo livro. Vou almoçar com o Múcio (Maio Gráfica) amanhã para decidir sobre o próximo livro, “O Cruzeiro do Sul”, reunião dos jornais da FEB que circularam exclusivamente entre os pracinhas na Itália. O projeto editorial e gráfico está de arrepiar: lindíssimo! Ainda por cima, consegui um trunfo comparável ao milésimo gol de Pelé. No dia l3 de novembro, um sábado, no Monumento dos Pracinhas, 11h, com a presença de povo assistindo ao desfile das Bandas Sinfônicas Militares, será lançada esta edição. O neto do marechal Mascarenhas de Moraes vai ler o discurso (curto e antológico) pronunciado por JK , há 50 anos, quando se inaugurava o monumento. Tem mais, tem mais, mas o que aí vai já é um bom começo. No capítulo das enfermeiras, temos a Capitã Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero (93). Lúcida e vivíssima, uma gracinha de gente que vem a ser prima de Oscar Niemeyer de um lado e Tônia de outro. É mole? Nota muito pessoal: o Marechal Mascarenhas de Moraes nasceu há 127 anos. E 127 era o meu número no Colégio Pedro II Internato. É mole ou quer mais? Beijão nas meninas e abração do Léo Léo Christiano Editorial Ltda, Rio.

Negócio seguinte: Léo e eu somos amigos centenários, pois sou amigo dele há mais de 50 anos e ele é meu amigo no mesmo tempo. Já teve galeria de arte e, há uns 50 anos, me deu um quadro do pintor fluminense José Maria, que valoriza uma parede da minha sala de estar. Entre as principais obras de sua editora, estão Da cor à cor inexistente, de Israel Pedrosa, que já deve estar pela décima edição, Mario Quintana, Portinari, Ado Malagoli e muitos outros, a maioria em edições de luxo. O próximo livro da Léo Christiano Editorial é uma edição convencional, chama-se Almanaque do Camaleão, e seu autor é Mario de Almeida. Em novembro, sai uma edição com todos os 34 números do jornal O Cruzeiro do Sul, órgão especial da FEB que circulou, às quartas-feiras (e depois quintas) e aos domingos, entre os 25.000 pracinhas na Itália de 3 de janeiro a 30 de maio de 1945. Editado e impresso em Florença, estima-se uma tiragem de 4 mil a 5 mil exemplares. O então tenente da infantaria Otávio Costa assinou o texto de apresentação do jornal e citou jornalistas notáveis como correspondentes de guerra de jornais brasileiros, entre os quais Rubem Braga (Diário Carioca), Joel  Silveira (Diários Associados), Egidio Squeff (O Globo), Raul Brandão (Correio da Manhã) Francis Halawell (BBC), Bagley (Associated Press) e ilustradores como o genial Carlos Scliar. Já general, Otávio Costa dirigiu a AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas – durante um período dos anos de chumbo. Quanto ao Carlos Scliar, deixou um óleo do seu tempo de guerra, dois pracinhas jogando xadrez. Léo está dando uma excelente contribuição para a memória nacional e uma bela oportunidade para eu puxar o saco dele. Saco puxado, abração. 

Mestre Mário. Estudei no mais tradicional colégio jesuíta de Santa Catarina, o Colégio Catarinense. Tive a sorte de ter professores memoráveis, dos quais lembro até hoje. Mas nenhum me contou o episódio da “proclamação da Independência” de maneira tão arguta, honesta e pitoresca como você. Adorei o “evidente equívoco genético” e a saborosa história do desfile. Abração do fã confesso. Carlos Eduardo, Florianópolis.

Tu és muito generoso. Obrigado. Abração. 

Longa coluna, torna-se curta ao terminar de ler, pois é do tipo “quero mais”. Lembrei “não fora para tão longo amor tão curta a vida”, não sei por quê. Ou melhor, sei. Linda, linda, e exata tua coluna. Bem dentro dos conceitos do Laurentino Gomes, que pensa estar sacudindo a mídia com o novo livro 1822, que, na verdade, deve ser bom. Ou já tinhas lido? Achei que não porque ele diz que o Pedro I (Piroca I  é notável) não estava a cavalo, que na época eles só andavam em mulas. Vi ontem um ótimo documentário do Edney Silvestre, com o Laurentino, sobre o livro, mas o bonito foi que a ambientação foi o Museu Ipiranga, uma glória. Não concordo que o quadro do Pedro Américo seja cópia de Messonier. Inspirações se tem aos montes, em todas as artes. Na época, acadêmica, os quadros tinham uma estrutura padrão, no meio o foco, em volta o adicional. Na do Américo tem negros, tem uma casa, que não tem no Messonier. Não era cavalos? Tá, mas como é que o Américo ia pintar mulas? Muito antiestético. Não tinha ainda Dragões da Independência? Claro, ela não tinha sido declarada… Não havia guardas? Bj. Vera, Porto Alegre.

Veríssima: vamos lá. Inda não li o 1822. Também assisti à entrevista do Edney com o Laurentino e gostei. Fiquei surpreso com o fato do Pedro I estar montado numa mula e explico a surpresa. Quando da proclamação da Independência, há muito a cidade de Sorocaba, São Paulo, já era um importante mercado de animais onde, em 1733, nascia a “Feira de muares”. Em não havendo, ainda, estradas de ferro e de rodagem, havia necessidade de transporte de mercadorias. A mula era o animal mais indicado e sua criação um grande negócio, tanto em tamanho como em termos financeiros. Dois produtos eram comercializados em Sorocaba e faziam sua riqueza: algodão e mula. Minha surpresa vem do fato que, como montaria, o cavalo já era usado, naquela época, por alguns poucos fazendeiros de São Paulo e Minas. No entanto, bons para cavalgar têm uma história à parte. Aliás, tanto a criação de mulas em alta escala começou no Rio Grande, como uma passagem de tropeiros de lá – onde os cavalos não eram ainda criados – eram capturados em estado selvagem e que são, hoje, os crioulos, de origem espanhola e chegados aos pampas ainda nos tempos de colonização. Havia, entre gaúchos e paulistas, um grande negócio de animais não humanos e índios caçados para servirem como escravos.

Não sabia que o cavalo – como montaria – ainda não chegara, em 1822, à Corte e daí minha estranheza, pois consta que D. João VI, em 1812, doou ao Barão de Alfenas um garanhão da raça Alter Real, cujo cruzamento no Sul de Minas, com éguas comuns que chegaram ao Brasil na colonização, deram origem à raça Sublime. Alguns exemplares comprados e levados para a Fazenda Mangalarga, na cidade fluminense Paty de Alferes, acabaram sendo conhecidos como Mangalarga mesmo. Para quem quiser se especializar em cavalos, inda que não tenha sido minha fonte, informo que, em Sorocaba, existe a Universidade do Cavalo. Eu não sabia que a parceira do Piroca I nas margens do Ipiranga era uma mula. Nem eu nem Pedro Américo.

Mario, Incrível a sua memória. Os relatos d’ A Independência do Brasil são marcos de cada geração. Os desfiles eram um momento de honrar a Pátria. Depois veio a ideia que a Pátria é o mundo e por aí perdeu-se o amor ao Brasil. A Pátria é o mundo, mas o chão que pisamos é o Brasil e ainda havemos de cuidar dele com carinho… saudades do tempo em que se amava a nossa terra. Quanto ao desfile, seu relato é impecável. Ouvi muitas vezes esse causo de memória na voz do Maury. Que saudades também. Grande abraço, Denise viúva (Maury Demange), São Paulo.

Denise, saudades compartilhadas, posto que solidárias, amenizam-se um pouquinho. Beijos. Mario.

Quanto à sugestão do Monserrat de editar aqui o poema Pátria Minha, de Vinicius de Moraes, confesso que pensei nisso na crônica anterior, mas não o fiz por causa do seu tamanho. Como a coluna de hoje já está imensa, nada impede que eu preste tributo ao poetinha que conheci em poucos minutos em 1956, no Teatro Municipal, Rio, na noite de estreia do Orfeu da Conceição, ao nosso anfitrião em Montevidéu, 1958, quando apresentamos Poetas & Poemas naquela capital e que passou a me chamar de Almeidinha, a partir do nosso reencontro no bar e restaurante Antonio’s, no Leblon, Rio.

Vinicius, pessoa extremamente delicada, no dia em que tomou a “saideira”, foi indelicado para comigo. Despedir-se logo no dia do meu aniversário!?

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima

Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo

É minha pátria. Por isso, no exílio

Assistindo dormir meu filho

Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:

Não sei. De fato, não sei

Como, por que e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa

Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos

E sem meias pátria minha

Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho

Pátria, eu semente que nasci do vento

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço

Em contato com a dor do tempo, eu elemento

De ligação entre a ação o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo adeus

Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido

De flor; tenho-te como um amor morrido

A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito

Nesta sala estrangeira com lareira

E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra

Quando tudo passou a ser infinito e nada terra

E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu

Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz

À espera de ver surgir a Cruz do Sul

Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha

Amada, idolatrada, salve, salve!

Que mais doce esperança acorrentada

O não poder dizer-te: aguarda…

Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para

Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo

Vi minha humilde morte cara a cara

Rasguei poemas, mulheres, horizontes

Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta

Lábaro não; a minha pátria é desolação

De caminhos, a minha pátria é terra sedenta

E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular

Que bebe nuvem, come terra

E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem

Uma quentura, um querer bem, um bem

Um libertas quae sera tamem

Que um dia traduzi num exame escrito:

“Liberta que serás também”

E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa

Que brinca em teus cabelos e te alisa

Pátria minha, e perfuma o teu chão…

Que vontade de adormecer-me

Entre teus doces montes, pátria minha

Atento à fome em tuas entranhas

E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha

Teu nome é pátria amada, é patriazinha

Não rima com mãe gentil

Vives em mim como uma filha, que és

Uma ilha de ternura: a Ilha

Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia

E pedirei que peça ao rouxinol do dia

Que peça ao sabiá

Para levar-te presto este avigrama:

“Pátria minha, saudades de quem te ama…

Vinicius de Moraes.”

Autor

Mario de Almeida

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