
Dom Pedro I, que entre seu primeiro nome e o último – Bourbon – tem outros 20, incluindo dois “de” e um “e”, vinha a cavalo de Santos, onde fora resolver um crise entre a aristocracia rural e seu primeiro ministro, o santista José Bonifácio de Andrada e Silva, quando “as margens plácidas” do Riacho Ipiranga entraram no hino brasileiro por conta de um “brado heroico”. Era 7 de setembro, um ano antes de passar a ser feriado.
Fofocas da época cruzavam duas coisas: dias antes do brado conhecera Domitila (ou Domitília?) de Castro Canto e Melo e 14 meses depois nascia no Rio Rodrigo Delfim Pereira, filho da Baronesa de Sorocaba, irmã da futura Marquesa de Santos e do Pedro I. Laços de família? Sim, mas nada a ver com a premiada telenovela do meu amigo Manoel Carlos.
O apetite do imperador lembra o pai, guloso em sua predileção por frangos, gula insaciável que o filho transferiu para as mulheres: 18 filhos! Será por isso que na Bahia o afetivo de Pedro é Piroca? O Piroca não perdoou nem a clausura da monja portuguesa Ana Augusta, e o santo casal colocou mais um Pedro no mundo.
Numa parada às margens do riacho que alguns protagonistas juraram ser uma parada intestinal, ou melhor, por exigência dos intestinos, o príncipe recebeu uma carta paterna com ordens para regressar à Pátria, uma outra do José Bonifácio aconselhando o rompimento com Portugal e ainda outra da mulher, Maria Leopoldina de Áustria, que, dando força ao conselho daquele que passaria à História como o Patriarca da Independência, escreveu: “O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece”.
Pedro, posando para o xará, pintor Pedro Américo (de Figueiredo e Melo) que nasceria 21 anos depois, montou em seu cavalo, apontou a espada para o céu e, finalmente, soltou o brado: Independência ou Morte!
A Independência sempre foi relativa, mas rendeu uma boa grana à Inglaterra, mediadora do acordo Brasil/Portugal.
Pela Independência, a Morte aconteceu, principalmente nos lugares insurretos. Na inexistência de um exército brasileiro, mercenários comandados por oficiais estrangeiros sufocaram a resistência portuguesa nas províncias da Bahia, do Piauí, do Maranhão e do Pará.
1826. D. João VI pressentiu que a rainha Carlota Joaquina ficaria viúva e, portanto, rainha de Portugal e Algarves. Evitando que os súditos pagassem pelo fato do seu enorme erro conjugal, nomeou sua filha, Dona Isabel, participante da regência até que D. Pedro fosse notificado da morte do pai.
Essa astúcia eliminou a possibilidade de a Carlota – uma horrorosa de corpo e alma, um evidente equívoco genético –, exercesse o poder em Portugal e dos Algarves daquém e d’além-mar, em África Senhor da Guiné, etc., etc.
Pedro I torna-se, em Portugal, o rei dessas etecéteras todas e, em obediência à nossa lei, renuncia ao poder no Brasil, deixando seu filho como regente, sob a tutela de preceptores. O Piroca I é promovido, em Portugal, a Piroca IV e o filho do Piroca I passa a ser, no Brasil, o Piroca II.
Chega de histórias, que isso é coisa do sambista Criolo Doido, que a minha lúcida memória me remete para a manhã de 7 de setembro de 1947, Escola Caetano de Campos, Praça da República, São Paulo, SP, que, depois que inventaram o CEP, usa o 01045-903.
Semana da Pátria, dia do desfile escolar paulistano. O garoto aqui chega no pátio da Caetano, recebe uma checada visual do Alfredão, professor de Educação Física que manda:
– Mario, vai na Secretaria, pede a bandeira do Brasil, traga-a aqui. Você vai desfilar com ela.
Poucos minutos depois, chega o colega e amigão Maury, quase dois metros de altura que recebe o mesmo pedido, agora referente à bandeira paulista, aquela que, conforme meu conterrâneo, poeta Guilherme de Almeida, é a
Bandeira da minha terra,
Bandeira das treze listas:
São treze lanças de guerra
Cercando o chão dos paulistas
Por ser a maior e mais importante escola de São Paulo, a Caetano de Campos tradicionalmente abria os desfiles, no caso, no Vale do Anhangabaú, onde era montado o palanque das autoridades. A saída do desfile era na boca do Anhangabaú, bem no início da 9 de Julho.
O Alfredão manda que duas garotas segurem, cada uma, a ponta de uma bandeira, e a banda da Força Pública dá início ao show ao rufar dos tambores… E lá fomos nós…
Quase chegando defronte ao palanque, sem nenhum aviso aos porta-bandeiras, o Alfredão manda as garotas soltarem as pontas.
Sufoco, o ponto de honra para Maury Demange e para este garotão foi não dar vexame e nem deixar a peteca cair.
Mais tarde, já satisfeitos com as nossas performances de navegadores, Maury Demange, hoje uma grande saudade, me pergunta:
– Mario, quando as garotas soltaram as pontas, você deu um grito, mas só entendi “brisa”. O que era?.
– Pô, cara, lembrei-me de Castro Alves, daquele seu verso da bandeira e da “brisa que o Brasil beija e balança” e não me segurei: brisa é a mãe!
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a crônica anterior)
Grande Mário. Bela “estória” (era mesmo assim que a gente, no colégio, definia um conto de ficção). Aguardo, como muitos, a publicação “do todo”. Abração! Carlos Eduardo, Florianópolis.
Que delícia de texto. Enquanto lia, a canção “Jovens tardes de domingo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, entoava em minhas memórias juvenis. Parabéns. Eduardo Almeida, São Paulo.
Jovem Mário!!! Até o pai de Liliana seguir para Caicó estava seguro de que o texto era um roteiro de cinema… Por favor, não me deixe desaparecer do teu computador! Viva a vida, como sempre disse o Aloísio Magalhães. Moisés Andrade, Recife.
Mário, o texto fez-me lembrar das primeiras investidas de adolescente na arte de amar … e aquela música. Abraços. Aderbal Moura, Rio. A música:
Composição: Herminio Gimenez, José Fortuna e Pinheirinho Jr.
Saudade, palavra triste
Quando se perde um grande amor,
Na estrada longa da vida
Eu vou chorando a minha dor
Igual a uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Teu nome sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz desse sofredor
Que implora por seus carinhos
Só um pouquinho do seu amor
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou,
Só a dor deixou
Nesse peito meu
Meu primeiro amor
Foi como uma flor
Que desabrochou e logo morreu
Nesta solidão, sem ter alegria
O que me alivia são meus tristes… ais…
São prantos de dor
Que dos olhos caem
É porque bem sei
Quem eu tanto amei
Não verei…
Jamais…

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