Liliana.
Linda. Muito linda. 13 anos, quase 14. Quase mulher. Ou já era? Vizinha.
Domingo, quase meio-dia. Fernando, descalço, chuteiras penduradas nas costas, chegava de uma partida de futebol. Ao passar pelo portão, ouviu o chamado:
– Fernando!
– Oi!
– Você vai à matinê hoje?
– (Pausa) Ainda não sei. (Leônidas, Leônidas da Silva, o Diamante Negro jogava no tricolor e Fernando ia a todos os jogos do São Paulo no Pacaembu. Mas a pergunta de Liliana poderia mudar o domingo).
Liliana – Se você for, você me leva?
Fernando – Eu não queria ir sozinho, mas se você for, eu vou.
Liliana – Então a gente vai, né? Três e meia aqui, tá bem?
Fernando – Feito.
Debaixo do chuveiro, Fernando assobiava. Coisa rara.
Matinê. No momento em que o “Mocinho” ameaçado saca o revólver, Liliana aperta com força a mão de Fernando. Ele coloca a outra mão por cima. Assim ficam. Minutos depois, Fernando retira só a mão de cima. Quando o “Mocinho” cavalga em direção ao crepúsculo, segundos antes de aparecer o “The End”, Liliana retira a sua mão. Luzes acesas, levantam-se e encaram-se. Há um momento mágico, silencioso, uma troca recíproca de surpresa e encantamento. Do cinema ao portão de Liliana eram seis quadras. Seis quadras de silêncio.
Já no portão, ela pergunta:
– Quer dar um pulo aqui às 8 horas?
– Quero.
Segunda Guerra Mundial. O Brasil juntara-se aos Aliados. Racionamentos. Enquanto os pracinhas combatiam na Itália, o diabo amassava uma mistura de mandioca com trigo apelidada de pão. As filas que se formavam antes da alvorada propiciavam os beijos no portão de Liliana. Beijavam-se e iam para a fila.
Domingos. Missas das 10. Fernando pendurou as chuteiras. À saída da igreja, uma porta lateral do cemitério oferecia um caminho de volta. Atrás de túmulos altos, iniciativas de um sexo limitado pelo ambiente, pela idade e pelas convenções. Numa manhã, Liliana pegou a mão direita de Fernando e levou-a ao seio esquerdo. Ele acariciou um e depois o outro. Alumbramento.
Liliana e Fernando jamais trocaram palavras sobre gestos. Era o vocabulário do silêncio. A loquacidade – ideias, projetos, histórias – alternava-se com o mutismo, que falava mais alto. Entre palavras e não-palavras, eles teciam a certeza de um futuro comum.
Quase dois anos depois daquela matinê, o pai de Liliana, um militar, anunciou que eles iriam para Caicó, uma pequena cidade escondida no mapa do Rio Grande do Norte. O choque, inda que inevitável, não poderia ser maior.
Chegando a Caicó, Liliana comprou um diário e despejava seu ódio a tudo.
Numa manhã, Fernando decidiu calçar as chuteiras. Num outro domingo, foi ao Pacaembu.
Liliana conheceu Carlos e queimou o diário.
Fernando não foi mais à missa. Matinê? Jamais.
Essa história foi escrita pela lembrança de um filme argentino com Libertad Lamarque e Hugo del Carril, onde o infortunado casal, falando e cantando tangos, rememora o passado e chora o futuro que não houve.
Na verdade, nem houve a história, nem o filme, personagens, nada.
Ficção pura, por falta de inspiração para escrever esta coluna.
Além do horrível pão de mandioca e trigo, introduzi outra verdade por puro remorso: os beijos aconteceram mesmo no Cemitério São Paulo, na Rua Cardeal Arcoverde. Uma história entre dois ginasianos – Yolanda e eu. Yolanda com Y.
Inté.
Vitrine (comentários sobre o conto Cachorrão)
Mario, pausa no trabalho, acabo de ler tua coluna. Realmente, a História nunca foi pródiga em vinganças. Deve ter sido muito sofrida a morte de Filinto Strumbling Müller, sufocado aos poucos no interior de um Boeing 707 em chamas. Mas, infelizmente, foram junto outras cento e tantas pessoas… Foi-se um carniceiro, mas também se foram a beleza de Regina Lecléry, a voz de Agostinho dos Santos, o talento de Julinho Delamare, etc., etc., etc.
Abração, Gustavo Boja Lopes. Rio
Olá, mano, gostei do Cachorrão. Com certeza, mereceu a porrada. Um abraço. Coelho (Eduardo Coelho Pinto de Almeida). São Paulo
Perfeito. Li bem devagar. É que quando um texto é muito bom, é preciso saboreá-lo, como um sorvete. O qual, sorvete, é das coisas de que mais gosto.
Bj, Vera Veríssimo, Porto Alegre
Do Recife, veio do arquiteto Moisés Andrade um alô fraterno. O computador sumiu com ele. Mario.

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