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Eleições animadas

Se as eleições para governador deste ano fossem um desenho animado, em traço, humor, gags e loucuras, à semelhança de “Uma Família da Pesada”, veríamos

Se as eleições para governador deste ano fossem um desenho animado, em traço, humor, gags e loucuras, à semelhança de “Uma Família da Pesada”, veríamos Tarso e Fogaça conversando gentilmente, enquanto seus militantes jogam bexiguinhas com xixi uns nos outros. Mas alguém joga algo mal cheiroso e de aparência suspeita, o que deflagra uma batalha campal, em que todos jogam coisas mal cheirosas e suspeitas uns nos outros.

A imprensa diz que o cavalo da Yeda está correndo por fora, pois a governadora agora encontra-se na  Praça da  Matriz, onde faz um espetáculo cênico, como se fosse uma camelô. Ela tem dois sacos nas mãos, um, o saco das maldades, utilizado contra o Feijó (e outros desafetos), e o outro, o saco das bondades. Os prefeitos do interior, todos de calças curtas e boné ao contrário, cercam a governadora. Ela abre o saco das bondades e joga balas e guloseimas para todos. Um dos prefeitos (aparentando uns três anos de idade, ainda usa fraldas) grita com a voz rouca e grave: “E os malditos subsídios para a safra?”. Yeda olha para ele e diz: “Cale-se”. Então ele engatinha até a torre mais alta da Catedral e se atira de lá. A Brigada, sabedora que este prefeito costuma se suicidar quando é contrariado, já havia deslocado bombeiros para ampará-lo na rede. Mas o prefeito quica na rede e cai no meio de uma comitiva do MST, seus arquiinimigos. A governadora vira o rosto para não ver o desfecho da cena.

Um marqueteiro, que tem a cara do sinistro chefe de Homer Simpson, aquele que é dono da Central Nuclear de Springfield, se aproxima de Fogaça e diz que ele deveria cantar Vento Negro toda vez que chover cinza em Porto Alegre, como ocorreu na semana passada. Fogaça responde que não. Não cantaria, pois sempre que canta Vento Negro, lembra que nunca quis ser político. Queria mesmo ser compositor e poeta, por isso fica muito deprimido toda vez que ganha uma eleição.  E que não sabe exatamente porque as pessoas votam nele. “É o desapego” – diz um assessor menor (com voz cândida). Fogaça escuta isso, olha para ele, e começa a chorar. Oitenta psicanalistas (em plantão permanente) entram em cena para dizer a ele para parar com esta manha. Um dos analistas (parecido com Freud) bate a cinza do charuto e diz, com a entonação de voz dos psicanalistas: “Quando tiver vontade de chorar, lembre-se de coisas alegres”. (Modéstia à parte, eu mesmo achei brilhante esta recomendação.)

Entrementes, Tarso, que acaba de tomar um bom banho (recebeu alguns respingos na guerra de bixiguinhas), sai com um pulover displicentemente jogado sobre os ombros, para uma caminhada na volta do Mercado Público. E dá de cara com Olívio tomando “um martelinho”. “O que é que é isso, companheiro?!? ” – exclama e pergunta. Olívio responde prontamente. “Estou provando para saber se não está envenenada.” “Como assim, companheiro Olívio? Com todas as nuances do processo dialético, como tu também realinhei a nossa agenda, para um porvir capaz de tornar factível o sonho da utopia na correlação com os agentes e as forças endógenas, o que vem a ser o único critério da verdade.”

Olívio ouviu atentamente, emborcou o martelinho num único trago e disse: “Não, companheiro.” “Não o quê, governador?”. – retruca Tarso, temeroso de que se criasse ali um debate improdutivo.  “Não está envenenada”, respondeu Olívio, dando um largo sorriso e alisando o bigode.

Autor

Paulo Tiaraju

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