Colunas

Divagações absolutamente inúteis

Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundoque amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.João foi para os Estados Unidos, Teresa …

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

(Drummond)

Tinha eu quatro anos quando o bispo de Campinas, em visita à nossa casa, perguntou se eu queria ser padre:

— Não, não quero usar saia.

Não quis ser muitas coisas na vida, mas quis ser algumas coisas que não fui, ou não fui por muito tempo. Além de saias, nunca me imaginei ligado à ciência ou à tecnologia.

Gostaria de ser um poeta, gostaria, mas nunca levei a sério meus precários versos.

Se o ato de divagar fosse remunerado, então seria milionário.

Ainda nas primeiras letras encantava-me a ideia de ser advogado e, já nas segundas, declarava-me um futuro advogado. Criminalista.

Fiz até um pequeno curso de Oratória. Um ensinamento de retórica uso até hoje: num debate ou numa discussão, nunca respondo a uma pergunta do adversário sem antes tentar invalidar a pergunta.

Ferramenta básica para o exercício do Direito é a Lógica e isso, junto com outras matérias da Filosofia, cativaram-me cedo.

Fato prosaico afastou-me do Direito. Enquanto cursava o Ginásio, fui, por meses, um meio contínuo (office boy) vespertino de um escritório de advocacia e isso me levava muitas vezes ao antigo Fórum de São Paulo. Aquela típica repartição pública paulista dos anos 1940 liquidou meu projeto profissional. Era ambiente compulsório para o ofício e nada propício para passar boa parte de minha vida. Soprei com força o pó e a burocracia do meu futuro.

Essa minha última viagem ao Ceará, por puro acaso, detonou essas e outras divagações que apenas a ideia de escrever esta crônica encontrou um mínimo de utilidade. O resto justifica o título.

O jovem David Hulak, estudante pernambucano, foi-me apresentado em 1962, em Porto Alegre, durante o Festival do Teatro do Estudante, iniciativa de  Paschoal Carlos Magno. Em Porto Alegre e depois Rio de Janeiro, durante quase 10 anos mantivemos alguns contatos amigos. David me redescobriu via Internet na Coletiva e, a partir de então, agitamos e-mails recíprocos. Conclusão: ao saber de minha ida ao Ceará, agendamos datas e ele foi, do Recife, almoçar comigo em Fortaleza.

Naquele almoço surgiu  o nome de Rubens Teixeira, ator de formação carioca, diretor e hoje professor de teatro em Campinas. Contei para ele que há menos de dois anos Rubens esteve no Rio e, junto com Fernando Gameleira, antigo diretor do Teatro Rural do Estudante (faltou à reunião, por trabalho, o Rogério Fróes) pusemos em dia uma conversa  de meio século. Rubens trabalhou anos na Paraíba e em Pernambuco, tornando-se grande amigo do David.

Não contei para o David o que nunca contei para alguém  (contar poderia parecer gabolice), mas o Rubens cobrou uma atitude minha que eu esquecera há muito.

O Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em 1958, acolheu uma temporada de espetáculos com direção de Ziembinski, com Cacilda Becker e Walmor Chagas à frente de grande elenco, no qual participava meu amigo Rubens Teixeira, a quem eu dirigira no Rio, no Teatro Rural.

Cacilda demonstrara para o Rubens vontade de conhecer um jovem diretor para trabalhar com eles e Rubens me levou para conversar com ela. Percebi que ao longo da conversa eu já começara a ser sondado para voltar para São Paulo e trabalhar com eles. Quando o convite foi feito, minha resposta encabulou o Rubens, pois escusei-me, inda que com humildade e gentileza, alegando que sendo ela a maior dama do teatro brasileiro e, como tal uma vedete, eu tinha certeza que aconteceria um inevitável choque de temperamentos.

Eu me sentia inda na fase de investigar o não investigado e queria tentar o novo. Estava ensaiando Poetas & Poemas e aquele universo de invenção cênica me entusiasmava.

Minha resposta à admirável atriz e empresária Cacilda Becker meio que encabulou meu amigo Rubens Teixeira que – 50 anos depois – inda se lembrava do que eu esquecera.

Do fato começaram minhas infinitas divagações: Lara de Lemos, com quem convivi 16 anos, em 1958 ainda era apenas uma gaúcha conhecida; a ditadura expulsou-me do Rio Grande; entrei na Propaganda em São Paulo e fui para o Rio; há 33 anos vivo com Aurea, uma cearense que veio estudar no Rio e ficou e temos duas filhas e uma neta cariocas.

Nossas vidas se definem como um jogo de dominó e para cada Sim ou Não traçamos um caminho diferente.

Quem seria eu, se houvesse dito Sim à Cacilda? Estas, inda que inúteis, são divagações instigantes.

E você, tem ideia do que seria se não fosse o que você é?   

Inté.

P.S.

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

                                                              (José Régio) 

Vitrine

Minha última coluna — 09.08 — começava com um tributo ao Peréio pelos seus próximos 70 anos. Dia seguinte, no Festival de Cinema de Gramado, RS, Peréio recebia o Prêmio Oscarito, homenagem a todo o seu trabalho na telona.

Lá mesmo de Gramado, onde reside, o amigo comum, José Antonio Moraes de Oliveira, mandou:

Pereio Oscaritozado – Caro Mario, Hoje, nosso querido e rabujento Peréio, o Paulo César de Campos Velho estará recebendo o troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado. Se conseguir chegar nele, dou um abraço por nós dois.

Vera Veríssimo, quando Vera Gomes, foi a Julieta da nossa montagem shakesperiana. Peréio era Teaobaldo, ela escreveu: 

Então, leve? Peréio pode ser tímido mas deve ter gostado da homenagem que recebeu, pelo fato de que é um tributo ao seu trabalho. Cuidei a TV mas não acertei o horário em que talvez tenham televisionado a entrega do Oscarito no Festival de cinema de Gramado. Eu gostaria de enviar um e-mail para ele, tens? Acho que ele vai estranhar, mas me deu vontade.

De Florianópolis o doutor e professor Carlos Eduardo da Cunha enviou:

Grande Mário. Virou lugar comum elogiar suas crônicas e invejar sua prodigiosa memória. Isso sem falar nas ricas e ecléticas relações cultivadas ao longo da vida, mais um talento seu. Coisa pra poucos. No frio que tem feito aqui pelas bandas do sul (graças a Deus,) ler você é como degustar um bom vinho – indispensável. Abração do fã confesso.

Autor

Mario de Almeida

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.