Fu Lana não poderia colocar o nariz fora da porta no dia 13 de agosto, uma sexta-feira. Ainda mais com um tempo macabro, ventos fortes, chuva e frio. Uma tarde cinzenta e sinistra. Evitou compromissos. Trancou-se. Por nada valeria a pena arriscar. Tendo em fresca lembrança a falta de sorte nas duas semanas anteriores, recusou convites para ir a São Paulo e ao bar da esquina. Informou a todos sobre seu recolhimento, alertando que o azar beirava o contágio.
Disseram-lhe, quando ficou sem carro, confiscado à beira de uma estrada desconhecida, em um ermo interior do Estado, que tivera o privilégio de conhecer o Lúcifer, em pessoa, na figura do policial rodoviário Lisboa. Conhecido na região como carniceiro, Lisboa fazia arrepiar até cidadãos mais acostumados às agruras do asfalto, como taxistas e motoristas profissionais. Destemidos, preferiam nem ouvir falar dele.
Fu Lana ouviu até sobre a presença de uma balança de cargas viciada e sediada no tal posto. Depois de ter sido denunciada por motoristas sérios e avalizados por uma grande empresa local, foi desmantelada. Servia para multar os desavisados. E, naquela tarde de sol, em que Fu Lana flanava em direção à Serra, Lisboa acordara especialmente inquieto, querendo fazer mais vítimas do que o usual.
Fu Lana teve de ir buscar seu bólido em uma cidadezinha-satélite, a uns 120 quilômetros da Capital. Desceu do ônibus, meio perdida, e entrou num táxi. O motorista lascou: ‘Já sei, pagou o imposto adiantado’. Gracioso, ele. E levou Fu Lana contando que isso acontecia cinco ou seis vezes por dia.
No depósito, o pobre carrinho cheio de poeira acenava com os faróis cheios de cocô de passarinho. Tinha ficado esse tempo todo ao relento.
E o cara do balcão gritou pro motorista: ‘Leva ela no Lu!’, que era o cidadão que recebia a taxa devida pela infração administrativa. Dali, o motorista também já sabia que tinha de ir no xerox e trazê-la de volta.
Fu Lana sentiu-se um boi na mangueira. Sendo abatido.
Sair na sexta-feira, 13 de agosto? Talvez para ir ao cinema.
Se ela tiver coragem, juro que colocaremos aqui seus ricos comentários. Mas, primeiro, deixem acabar esse diazinho endiabrado.

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