“Eu não quero te matar, apenas.
Eu desejo para ti um sofrimento físico
e mental, lento, inimaginável, indizível, insuportável;
eu quero que, muito antes de morrer,
tu enlouqueças de medo e de dor.”
Quase tudo que li na grande imprensa sobre a sentença de execução por apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani é tratado de forma protocolar, à luz da aceitação cultural e do respeito às leis daquele país. Um conformismo que beira a indiferença, face a esta aberração anunciada, embora se perceba uma discreta contrariedade, aqui e acolá.
Se ela for executada a pedradas, não haverá nenhum eufemismo diplomático capaz de minimizar a brutalidade dos fatos. Ela será embrulhada, como uma múmia, mas com um tecido fino, e enterrada de pé, restando fora da terra dos seios para cima.
Haverá uma pequena multidão em torno do seu corpo (gritando ofensas para ela), armada com pedras, nem tão grandes que possam matá-la no primeiro golpe, nem tão pequenas que não causem dano.
Quando a primeira pedra acertar sua cabeça, Ashtiani estará tão contraída que talvez não sinta dor, naquele exato momento. A dor virá segundos depois. O que passará pela mente desta mulher, enterrada viva, um pouco antes de sua morte hedionda? Hirta, ela vai esperar outras 200 pedras que irão golpeá-la, destruir seu rosto, aos poucos, de forma lenta e imprecisa, até transformá-lo numa pasta sanguinolenta que, ainda assim, respira.
Seu “crime”, supostamente, foi ter tido relações sexuais fora do casamento. Após ser chicoteada e torturada, ela assinou sua confissão de culpa, no interior da masmorra. Assinaria qualquer coisa que estivesse escrito na “confissão”. O corpo das mulheres é uma propriedade sagrada dos homens árabes, tanto quanto é uma vaca, um trator, um pedaço de terra. Para seus verdugos, trata-se de um crime de corpo, de profanação de vagina. Soube também pela grande imprensa de uma jovem afegã que foi estuprada por três homens. Ela ousou se queixar às autoridades e foi sumariamente condenada. Passará alguns anos na cadeia porque, segundo a lógica jurídica do Afeganistão, se ela foi estuprada por três homens é porque teria sido a provocadora. Ou seja, os pobres homens foram forçados a estrupá-la.
Vi a foto de outra menina iraniana, cujo marido arrancou seu nariz e suas orelhas, porque ela não agiu dentro do rigor das vontades do seu senhor. Abstraindo-se a ignorância alarmante – e os preceitos religiosos, interpretados ao sabor da ideologia medieval machista –, na maioria das culturas do mundo árabe, a mulher é odiada e desprezada até a última fronteira da insanidade.
Todos já ouvimos falar sobre o requinte de crueldade da tortura chinesa, do garrote vil espanhol, e das práticas de tortura adotada pelos inquisidores da Igreja. No entanto, seria amoral a fixação de critérios sobre o que provoca mais sofrimento. Diante da selvageria, isso é irrelevante. Mas não é amoral dizer que a repugnante pena por apedrejamento só é comparável com as práticas nazistas, em preciosismo sádico e volúpia abomináveis.
Ao oferecer asilo para a condenada, o presidente Lula foi chamado de “ingênuo, emotivo e desinformado” pelos “diplomatas” iranianos. Matar uma mulher com tamanha atrocidade, isso, sim, é que é ser informado e compatível com os princípios éticos, legais e culturais daquele país. Os apedrejadores, certamente, compartilham o seguinte sentimento em relação à condenada: “Eu não quero te matar, apenas. Eu desejo para ti um sofrimento físico e mental, lento, inimaginável, indizível, insuportável; eu quero que, muito antes da tua morte, que tu enlouqueças de pavor, de desespero e de dor”.
Não tenho mais nada a dizer sobre a desgraça que se abateu sobre Sakineh Mohammadi Ashtiani, exceto que tentei descrever o seu drama, mas sei que fiquei muito longe de me aproximar do verdadeiro pesadelo em que ela vive, no corredor da morte, dentro de masmorras medievais, exposta ao ódio e à ira da guarda que gostaria que, após sua morte, ela ressuscitasse, para que pudessem fazer tudo mais uma vez. E depois que ressuscitasse, ainda mais uma vez. Para ser destrinchada a pedradas, ainda mais uma vez.

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