Que neste décimo agosto deste século, corra tudo a gosto a todos que o merecem.
Estou envolvido com os “finalmente” para imprimir meu próximo livro, o Almanaque do Camaleão, e hoje dou replay de crônica antiga, cujo tema é agosto mesmo.
Aproveito (o ensejo?) para agradecer ao antigo editor da Revista do Globo, jornalista Antonio Goulart, uma foto nossa (ele e eu), mais jornalista Flávio Tavares, cronista Antoninho Onofre, Rui Diniz Neto, da Editora Globo, e outros, à sombra de copos, no Cotillon Club, espaço sofisticado e fechadíssimo da capital gaúcha em tempos remotos.
Vamos ao replay:
Agosto, 10, é a data de nascimento do primeiro amor da minha vida, amor pra valer, aquela namorada que depois Carlinhos Lyra e Vinicius explicariam muito bem explicado:
“… Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste para você…”
Meu caminho, ainda que eu não o fizesse triste, certamente não teria sido feliz para essa namorada que – espero – foi ser alegre do jeito dela. Quando nos fomos – um para o outro –, agosto ficou sendo apenas o mês do aniversário do meu pai, e no dia 8, a gente saboreava um creme de ameixa, gulodice amada do velho, preparada com muito carinho e marca registrada das comemorações familiares.
Dois de Agosto era o nome do grêmio do nosso ginásio, data da fundação no século 19, do Instituto de Educação Caetano de Campos, na Praça da República, em São Paulo. Nesse grêmio eu fui, ano a ano, diretor de imprensa e orador, vice-presidente e presidente. Todos os dias 2, ou no dia útil mais próximo, durante o ano letivo, eu organizava um show, com os colegas, onde era o redator e apresentador: números musicais, esquetes e brincadeiras eram apresentados, no auditório da escola – um belíssimo teatro – em duas sessões: uma pela manhã, outra à tarde. Ainda me lembro que pedi à colega Yolanda Bulcão que riscasse Rachmaninov de suas apresentações no piano, pois eu sempre me atrapalhava quando ia pronunciar o nome do compositor russo.
Fui crescendo e todo ano tinha um agosto. Passaram-se alguns nos quais o dia 25, Dia do Soldado, era feriado nacional.
Em 24 de agosto de 1954, logo cedo, em São Paulo, eu, no chuveiro, fui avisado pelo meu pai: — “Getúlio deu um tiro no coração”. Aquele tiro adiou, por 10 anos, um golpe de direita que estava em andamento, um golpe a pretexto de que asseclas de Getúlio, sem o conhecimento do mesmo, tentaram assassinar o líder direitista, o “Corvo”, Carlos Lacerda. A síndrome brasileira da má pontaria matou o major Rubem Vaz e o resto da história seria um golpe de direita, não fora o gesto radical de Vargas.
A direita ainda se assanhou, tentou dar outro golpe, mas o General Lott, honra do Exército, deu o contragolpe e empossou Juscelino Kubitschek, que havia sido eleito presidente da República.
Jânio Quadros, sucessor de JK, até hoje não se sabe se de porre – lúcido jamais, pois mesmo sem beber nunca foi lúcido – em 25 de agosto de 1961, em vez de ir ao Rio Grande, onde era aguardado, renunciou à presidência. Foi tentado um golpe, agora com três militares à frente, que passaram à história como “Os três patetas” por tentar impedir a posse do vice, João Goulart. Leonel Brizola, então governador do Rio Grande, levantou o Estado, movimento que passou a ser conhecido como Legalidade, e os gaúchos abortaram a tentativa de golpe.
Jango aceitou a emenda parlamentarista, conseguiu repor o presidencialismo através de plebiscito, mas não conseguiu, em 1964, escapar do golpe que Getúlio conseguira com a morte e Brizola abortara na raça e no grito.
O discurso de posse de Castelo Branco como o primeiro ditador, hoje, é peça de humor e seu autor – o “Pinóquio do Ceará” –, o que não tinha de pescoço ganhou um nariz emblemático, como emblemática foi a data de um golpe prenhe de mentiras – 1º de abril.
Agosto deixou-me poucas datas alegres e só me lembro de uma bem festiva. O ditador que demitiu Vinicius do Itamaraty, chamando-o de vagabundo, um deslumbrado que, em dezembro de 1968, assinou o criminoso Ato Institucional nº 5, teve um derrame e, em 31 de agosto de 1969, foi mandado para casa. Arthur da Costa e Silva, desvestido da farda que nunca deveria ter vestido, vestiu com um pijama a sua boçalidade e a sua irresponsabilidade criminosa.
Estamos iniciando o quinto (agora, em 2010, o nono) mês de agosto deste século 21 e trago no coração, além da curiosidade sobre o destino daquela namorada, muitas boas memórias do meu pai e das famílias que eu já tive.
Para nós todos, um feliz agosto e um lembrete aos pessimistas: este é o último mês antes da Primavera.
Inté.
Vitrine (comentários dos leitores)
Minha gente,
Não criei Vitrine para ser elogiado, mas para elogiar meus leitores que acrescentam informações ou corrigem meus vacilos.
Não posso, porém, censurar o que me enviam, pois me despedi da imprensa gaúcha, na alvorada de 2 de abril de 1964, publicando na minha coluna – Sem Censura – na Última Hora, a Carta-Testamento e a foto de Getúlio Vargas.
Inda que meio constrangido, mas feliz, curvo-me ao compromisso assumido.
Mário, quero que v. saiba que leio e me delicio com suas “colunas”. Nunca deixe de enviá-las pra mim.
Que bom v. foi passear com a sua “dona” kakaka. Vocês merecem.
Beijos pra tropa toda. Lia Moreira, companheira de trabalho, amiga desde o antigamente, Teresópolis, RJ
Mario, querido, tenho recebido sempre certinho. Aquela última é que deu problema.
É sempre um prazer ler tuas Colunas e também os comentários. Um beijo, Cristina (Zanini), professora de Filosofia, amiga de antes do antigamente, Porto Alegre
Mario,
Adorei! Seus livros ainda estão por aí, nas grandes livrarias? Você tem forte semelhança com o Faveco (Flávio Correa), na fala sem censura que revela os excessos do tal politicamente correto. É uma mordaça, o pior é que já está legislado e pode gerar punição para incautos. Christiane Marcondes Alves de Brito – jornalista e escritora, São Paulo

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