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Uma ponte no caminho

Fu Lana vai à Uruguaiana. Finalmente, superou todos os pequenos obstáculos que tornava enormes para que a paralisassem. Venceu a agenda, a previsão do …

Fu Lana vai à Uruguaiana. Finalmente, superou todos os pequenos obstáculos que tornava enormes para que a paralisassem. Venceu a agenda, a previsão do tempo, marcou a inevitável viagem. Iria enfrentar oito horas em um ônibus executivo e nada iria fazê-la mudar de ideia. Venceria também a insistente prática da desistência de última hora.

Antecipou-se a si mesma, adquirindo as passagens, fazendo um xis em duas páginas de seu livro de compromissos. Seria uma vencedora, afinal. Dona de seu destino.

Dias antes da data marcada, percebera uma dor nas costas, que começava no dedo do pé. Convencida de que seria um simples joanete, evitou o autoboicote, preparando uma almofada ortopédica para manter a viagem marcada e, principalmente, para evitar a incontrolável vontade de cancelar. Venceria a si mesmo, a qualquer custo. Cumpriria uma promessa de anos feita à família e jamais realizada.

A sexta-feira iniciara promissora. Nada de bagagens. A viagem tinha aquele imenso pretexto afetivo e ela poderia voltar no dia seguinte para apenas provar que era capaz. Beijar as irmãs, sobrinhos, e prestigiar a formatura da afilhada. Tudo importava e o desafio seria vencido.

No táxi, com bastante antecedência, falou decidida: “para a rodoviária”. O sujeito foi logo dizendo: “Hi! A senhora está com pressa? Ouvi dizer que a Castelo Branco está parada”.

Fu Lana sempre encontra personagens agourentos em suas cotidianas aventuras. Faz parte de um bom roteiro. Eles chegam, sibilentos, anunciam a tragédia, ansiosos por ela.

Ignorou o motorista. Ele insistia: “Podemos ir pela Farrapos até a esquina da Garibaldi, e será apenas uma pernada até a rodoviária”. Ela tentou manter o humor estável e exagerou na soberba: “Vamos tentar o caminho normal”.

Sem percalços no transcurso, ela sorria disfarçadamente ao pagar o cidadão, que se desculpava: “É bom ser surpreendido com boas notícias, não é? Mas tudo são pecinhas de dominó. Ainda não caíram aqui, mas tem a hora”. Ela fez que não ouviu.

Dirigiu-se ao box certo, chegou antes da hora certa, com tempo bom, sol no alto, no meio do dia. O que mais poderia detê-la? Ela era, finalmente, uma vencedora.

Sempre sorrindo, abriu a garrafinha d’água e prestou atenção na tela de plasma da lancheria. Uma bonita tomada da ponte levadiça sobre o Guaíba. Nas letrinhas da base estava explicado: a única saída para a zona sul do Estado estaria fechada por tempo indeterminado. Fu Lana deixou cair a garrafa. Parou de sorrir. Gelou.

Seu ônibus estava no box. Ela embarcaria para uma viagem de onze horas para uma cidade longínqua, lá na fronteira com a Argentina. Todos os receios voltaram. Tomou um sonífero, um calmante e um relaxante muscular. Quando seu editor ligou pedindo o texto daquela tarde, mal podia balbuciar umas palavras: “Sou vítima de uma história grega. O destino e a tragédia me transformam em uma piada de mau gosto”.

Chegou à formatura à meia-noite. Os convidados se despediam, perguntando: por que perdeste o melhor? Alguns arriscavam piadinhas dizendo que a ponte não aprontava há anos.

As peças de dominó caíram aqui, enfim. Fu Lana aprendeu que, além do autoboicote, tinha de ficar atenta aos sinais. Sinais de alerta aos sofredores de plantão.

O retorno aconteceria sem sustos, mas seu coração nunca mais descansaria. Chuvas e trovoadas eram anunciadas nos jornais do dia.

Autor

Clo Barcellos

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