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A estreia

Eram os experimentalitas anos 70 e o casal ouvira falar das tais práticas do amor livre, o melhor dos dois mundos, o conforto do …

Eram os experimentalitas anos 70 e o casal ouvira falar das tais práticas do amor livre, o melhor dos dois mundos, o conforto do casamento, associado com sexo novo, o corpo inédito de outra pessoa. Tudo às claras, sem precisar mentir. A palavra cumplicidade entrou para o vocabulário deles e conversavam noite adentro, bebericando vinho. Como seria a experiência? Não, definitivamente, não haveria lugar para ciúmes, era somente sexo. Não haveria carinho com o parceiro sexual, porque isso seria falta de respeito, quebra de confiança. E beijo, só o estritamente necessário, tecnicamente falando. Ernani dava as regras do jogo. E depois, seria tudo em alto nível, com muito charme. Lígia era enfática quanto ao uso de drogas ilícitas, imagina, ela, uma professora formada no Instituto de Educação, jamais poria aquela porcaria de maconha na boca. Como iria encarar os alunos depois? Sexo grupal? Bem, teria que pensar, precisava amadurecer a ideia. E quanto aos casais? Quem eram eles? Na casa de quem? Um casal, ela conhecia, o Beto e a Andréia jogavam pôquer todos os sábados com eles! “É tudo gente boa” – respondeu Ernani. “Em nível de confiança, são casais classe média, gente intelectulizada, entende? Imagina, você acha que eu faria uma coisa destas com gente bagaceira?” A simples conversa deixou o casal excitado. Foram para cama e as paredes testemunharam o estremecimento, o descontrole, os gritos abafados. Após a tempestade, Ernani desabou no sono dos machos inocentes. Mas Lígia foi assaltada por uma vigília responsável.

Teria que ser numa noite que as crianças fossem dormir com os avós. “Seja o que Deus quiser, o que não mata engorda.” – pensou. Mesmo assim, continuava cismando. E se ele gostar muito? E se eu quiser mais? Me conheço… dou um boi para não entrar numa briga, depois dou uma boiada para não sair dela. Ai dele se demorar muito com uma vagabunda, eu corto, juro que eu capo ele. Não sei, não, acho que isso vai dar rolo…ai Jesus amado!

Lígia adormeceu e teve um pesadelo. Sonhou com o Ernani passando em revista todas as mulheres da festa, tudo em fast motion, câmera acelerada, ele pulava de uma para outra, mas quando chegou a sua vez, o companheiro dela, digamos, desflacionou. Prestou a atenção no homem e reconheceu a figura de Woody Allen. Ele gesticulava e falava muito, dando longas explicações sobre a inutilidade do coito propriamente dito, sem um ritual capaz de justificá-lo, e o quanto as fixações primitivas e as neuroses seriam responsáveis pela combustão de uma sexualidade efêmera, ainda que incendiária. Disse ainda que sentia muito ter fracassado, pois os olhos dela faziam lembrar os de sua tia Judith. E o Ernani lá, saltando de uma para outra, peladão. Lígia acordou sobressaltada e sentou na cama, suada e ofegante.

Noite de estreia. Para quebrar o gelo, o dono da casa servia as mulheres com generosas doses de uísque. Lígia não gostou do dele, achou de mau gosto um enorme pênis de pano pendurado  no avental que vestia. Alto nível… – pensou. Virou-se para o Ernani e perguntou: “Quem é este idiota?” “O Lélio, o dono da casa,  qual o problema?  “Aquele troço pendurado ali, não gostei daquilo.” O Lélio sacudia o corpo diante dos casais nervosos e constrangidos, fazendo a tromba de pano saltar de um lado para o outro.

Desconfiada, Lígia olhou para o ambiente. Não via incensos queimando, nem um pôster do Che Guevara, nem um quadro psicodélico, nada, aquilo ali não era swing moderno coisa nenhuma – pensou.  Viu o Beto e a Andréia sentados mais ao fundo, ambos pálidos, como se estivessem indo para o cadafalso.

O tempo passava, as pessoas bebiam a sorvos largos, o tom de voz subindo, mas nada indicava algo mais saliente. Súbito, uma voz masculina se fez ouvir com mais ênfase.

“Absolutamente, inflação não se acaba com decreto, isso é coisa do Golbery.”

Vinha de um grupo de homens que conversavam animados. As mulheres entravam e saíam da cozinha trazendo salgadinhos e sanduíches. Depois rolou Beatles, e Janis Joplins, e Violeta Parra, e Milton Nascimento e Chico: Pai, afasta de mim este cálice, afasta de mim este cálice, de vinho tinto de sangue. Algumas pessoas choravam emocionadas. Viva Ulysses Guimarães, alguém gritou. Vivaaaaaaa. Viva Tancredo! Vivaaaa. Súbito entrou rock and roll pesado. Os casais, para ser mais claro, maridos e mulheres, começaram a dançar, frenéticos. A única figura ligeiramente destoante do grupo era o solitário Lélio, dançando com o grande pênis de pano jogando de um lado para o outro, mas a estas alturas todos riam, aliviados.

Autor

Paulo Tiaraju

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