“Sedados pelo triunfo da estética sertaneja,
pela vulgaridade icônica, fonte da lágrima fácil,
apoteose da bunda corporativa,
da carne que dança e sacoleja
na frente das câmeras…”
O livro Mentes Perigosas, de Ana Beatriz Barbosa Silva – embora haja uma corrente de psiquiatras que torça o nariz para o trabalho da autora -, surpreende pela simplicidade com que expõe as muitas faces (perturbadoras) do psicopata, fora do seu repertório midiático, ou seja, do assassino frio e isento de culpa.
A autora descreve de forma direta a natureza do psicopata em seus diversos perfis, e, ao desconstruir a identidade do enfermo, fica claro para o leitor que, a conhecida figura do psicopata, associada aos assassinatos espetacularizados, é somente a mais visível das suas facetas. A partir daí a autora dá conta da sombria diversidade da doença. Logo fica muito bem demonstrado o quanto a convivência com indivíduos destrutivos e nocivos, em ambiente social, é absolutamente banal. O traço comum de todos é o comportamento aparentemente “normal”, sendo que, em geral, são pessoas inteligentes, sedutoras e convincentes em suas exposições.
A autora discorre de forma consistente sobre o modo de vida dessas pessoas inescrupulosas, perversas, ilusionistas e manipuladoras que vivem nos condomínios, que pode ser o seu vizinho de porta, e que trabalham normalmente nas empresas. São psicopatas, mas não necessariamente assassinos. No entanto, não é difícil lembrar de filmes e romances em que eles surgem na pele do vilão, do bandido violento.Claro, o psicopata rende tramas fantásticas, roteiros de áspera tensão, o que torna a figura do mordomo suspeito, brincadeira de crianças.
É só espiar de vez em quando as personagens medonhas que proliferam nas novelas da Globo.Vale tudo, gente, e o meu olhar incrédulo não se acostuma com o escracho da perversidade, da sacanagem da avó desalmada que prostitui as netinhas, as Erêndiras de novela. Porém, eu acho, o que pode confundir a inocência coletiva, é que, esta nova estética da violência, velada ou açougueira, nas dramaturgias do vale-tudo-por-dinheiro, posa de realista, e, pela lógica da trama, dá sentido para as aberrações. Na cara de pau, o roteirista está dizendo que a arte imita a vida. Não é verdade, é o folhetim da Globo que está criando uma nova cultura nacional.
Muito longe, por exemplo, da violência gráfica de Quentim Tarantino, o mestre dos mestres na arte fazer sangrar ao som de um rock eletrizante, ou até mesmo da mexicaníssima Malaguena Salerosa, trilha do non sense Kill Bill, mas é puro entretenimento, tudo com uma tremenda pertinência, e acredite, para o gênero, com esmerado bom gosto. Já na encenações operísticas, quando o tenor leva uma punhalada nas costas, em vez de sangrar ele canta.
Se a trajetória folhetinesca da Globo deseja conquistar a estranheza, o espanto, da minha parte, já conseguiu. Não pela sordidez das tramas, mas pelo ar entediado com que as pessoas traem, se prostituem, se sacaneiam, se esbofeteiam e se matam no horário das 20hrs, diante dos olhinhos indefesos. Essa é a minha perplexidade: o fato de fazerem tudo isso com cara de quem provando uma fatia de torta de cereja e não está gostando, mais nada. Não vejo densidade, contradições, tensão, conflito, nada destas substâncias capazes de transcender a retina e tocar na alma do espectador, para alertá-lo que aquilo que está acontecendo na telinha é grave, ou é doloroso, ou é imoral, ou é condenável. Não, nada disso. Aquilo que ele está vendo ali, pelo timing da cena, pela cara dos protagonistas, ora, aquilo tudo é uma rotina aceitável em Copacabana, na Barra, no Leblon, ou, no mínimo é rotina no complexo do Projak. Não sei em que medida está geléia geral, isenta de culpa, sem a mínima reflexão moral, não estaria dando uma mãozinha para chocar o ovo da serpente no aconchego dos lares brasileiros.
Ou seja, roteiristas, diretores e atores parecem estar sedados pela mesma droga sulfurosa que paira em cima do país: a banalização da vida e da morte. Sedados pelo triunfo da estética sertaneja, pela vulgaridade icônica, fonte da lágrima fácil, apoteose da bunda corporativa, da carne que dança e sacoleja na frente das câmeras, da histeria organizada nas tardes de domingo, do torpedão que vale um milhão, da morte do luar do sertão, ou pelo sucesso do continental do Gugu, da Xuxa, da Xôxa, da Xata, da Xóca. Então, dá licença, sou mais a violência do cinema americano, já que não surge nenhuma saída no horizonte. Não falem mal deste cinema perto de mim. Pelo menos, quando a jovem encontra o cadáver dilacerado da sua amiga, em vez de pegar o celular e contar, sorrindo, o fato para um amigo, ela põe a cabeça na patente e vomita. Isso sim é coisa de gente, é mais humano do que a desumanidade sabão em pó que lava e enxágua a cabeça das multidões tropicais, pobrezinhos.

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