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Dia de espelho

Dia de espelho é um daqueles em que passamos refletindo. Em função de uma mudança de endereço, me pus a refletir sobre algumas coisas. …

Dia de espelho é um daqueles em que passamos refletindo. Em função de uma mudança de endereço, me pus a refletir sobre algumas coisas. A primeira, e tenho certeza comum a todos os leitores, é a de que juntamos muitas coisas de que não precisamos. A gente vai comprando e ganhando inutilidades. Eu descobri, na mudança, uma faca elétrica. Saca faca elétrica, para fatiar peito de peru no Natal? É só pra isto que serve ou se eu estivesse com planos de esquartejar alguém. Mas teria que ser um bicho pequeno, porque senão a faca não serviria, seria fraca demais. Ou seja, ela só tem um uso.

Ao sair, fiquei olhando o apartamento vazio e me lembrando das coisas boas e ruins que aconteceram lá dentro. Mas aí, me dei conta de que o que realmente importa não foi o que aconteceu dentro do apartamento, mas dentro de mim. De mim e das pessoas que realmente importam na vida. Temos uma portabilidade muito mais interessante e evoluída do que a do celular: levamos nossas emoções, inteligência, experiências, tudo conosco. Lembrei então das várias casas em que vivi, algumas até já demolidas. Não foram os tijolos que importaram, mas os sentimentos.

Claro, não vamos desconsiderar o que um lugar bacana pode fazer com a nossa cabeça. Seja ele um museu, um pôr-do-sol, um show. Somos seres humanos e, como tal, emotivos, “emocionáveis”. Ocorre que é importante fazermos um contraponto a uma sociedade que está enfatizando cada vez mais a posse. E não estou falando só de coisas, não. Também de pessoas. A superficialidade está imperando nos relacionamentos. Assim sendo, prospera um sentimento infantil de propriedade com relação ao outro. As coisas que realmente importam estão em outro nível.

Como diz o título desta coluna, o meu Dia de Espelho aconteceu gerado por uma mudança de endereço. Os nossos Dias de Espelho deveriam acontecer com muito mais freqüência do que vêm acontecendo. Colocamos a culpa no nosso dia-a-dia alucinado, o que não é totalmente incorreto. Mas, se não der para termos Dias de Espelho com mais freqüência, que façamos a Hora do Espelho, o Intervalo do Espelho, o que for. Desde que olhemos com atenção para dentro daquele que está lá do outro lado.

Autor

Flavio Paiva

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