Caso a felicidade fosse perene, seria necessário a existência de uma hiperfelicidade para sabermos o que é estar feliz. Quer dizer, só identificamos estarmos felizes porque, em boa parte do tempo, não estamos. E como estamos em boa parte do tempo? Normal. Honestamente? Para mim, viver uma vida normal é pouco. Considerando que, mesmo a contragosto, um dia serei obrigado a morrer e, se isso se confirmar, vou passar o resto da eternidade um pouco deprimido e sem poder fazer muita coisa. Sendo assim, tenho o dever de saber o que me faz feliz e ir à luta. Barco parado não ganha frete e o casco enferruja.
A minha amiga, publicitária e professora (brilhante) de comunicação, Graça Craidy, me deu uma belíssima contribuição, ao me apresentar o francês Luc Ferry, pensador e filósofo moderno. Luc Ferry, que recentemente esteve aqui entre nós, foi ministro de Educação na França. Ele deu amplo apoio às medidas de se banir do ambiente escolar doutrinas e símbolos religiosos, entre eles, o uso da burca muçulmana nas escolas francesas.
O talento de Luc Ferry e a consistência do seu pensamento surgem no momento em que demonstra, com extrema simplicidade, porque vale a pena viver aquilo que você acredita que lhe dá felicidade. Ferry buscou na mitologia grega, onde a psicanálise costuma matar a sua sede, uma referência inspiradora, na qual se pode compreender como se engendra (e como surgem as saídas), para um dos dilemas mais perturbadores da natureza humana: segurança e apatia, versus risco e felicidade. Em geral, a segunda escolha leva em conta que, um dia, a vida termina. Pensar na morte ajuda a fazer a escolha que melhor responde ao que você precisa para viver a sua vida, não a vida que os outros querem para você. Só a possibilidade da morte, segundo Ferry, dá sentido para o valor das decisões feitas em vida.
Na Rapsódia V da Odisséia ,o náufrago Ulisses decide deixar a ilha onde vivia com Calipso, divindade feminina dotada de grande beleza e poder de sedução. Sobrevivente de um naufrágio em que todos morreram, Ulisses é socorrido pela deusa, que lhe dá tudo: proteção, comida, bebida e o conforto de uma gruta, onde viviam como amantes. Mas Ulisses sofria e chorava por Penélope, sua esposa, agora distante. Penalizados, os deuses gregos ordenaram que Calipso libertasse Ulisses. Que o ajudasse a construir um barco para enfrentar o mar e regressar para casa. Mas, apaixonada pelo herói, a deusa Calipso ainda tenta suborná-lo: promete a Ulisses a imortalidade. Ele escolhe se lançar ao mar, voltar para sua amada e continuar a vida como um simples mortal.
Luc Ferry oferece a mitologia para demonstrar que, eventualmente, somos defrontados com a necessidade de se fazer escolhas. E sugere que, como Ulisses, é preferível enfrentar os riscos das travessias dos nossos mares, do que viver uma imortalidade sem alegrias. Ferry ainda traz do eixo do mundo moderno,o que pensa a vida, um movimento moderníssimo. Embora pareça novo, sempre achei que, cedo ou tarde, esta onda iria varrer o planeta mais uma vez, isso era inevitável.
A redescoberta do amor, agora em uma pauta discutida abertamente por toda a sociedade. O amor em todas as suas manifestações, com ênfase na nova família. E a nova família, como uma célula acima da sociedade, da política e do estado. Esta nova família irá sempre privilegiar o seu ambiente e os seus filhos. O que se repensa é um modo de educação em que pais, comovidos por um amor devotado, ficarão ao lado dos filhos para evitar que enlouqueçam no abismo da falta de limites, e assim cresçam livres e seguros. Acho lindo porque sou de um tempo em que criança e cachorro era tudo a mesma coisa. Assim como sabemos que, hoje, certos cachorros têm privilégios que muitas crianças não têm. Mas, como dizia o ex-ministro Magri, cachorro também é um ser humano.
Resumindo: quando se considera seriamente a morte, não dá para se conformar com uma vida apenas normal e confortável. Deve-se lutar pela felicidade, como fez Ulisses. Como se fosse uma questão de vida ou morte.

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