Volta e meia, me sinto meio perdido neste mundo. Meio, não. Vou ser sincero com os meus três leitores: totalmente perdido. Só que isso não é necessariamente ruim.
Já escrevi muitas colunas atrás (hoje, já são mais de trezentas colunas escritas aqui para a www.coletiva.net) que a criatividade é, em uma certa medida, um ato de ousadia. Ousadia porque quando criamos estamos gerando algo diferente do que está posto. E é inegável que as pessoas tendem, como a temperatura, à acomodação. Não foi à toa que se inventou o termo “zona de conforto”. Então, juntemos tudo: se tendemos à acomodação, à zona de conforto, é inegável que a criatividade é um ato de ousadia e, exagerando, de bravura.
Criar é se expor. É romper com os paradigmas. É questionar. É tentar entender o mundo ou um assunto sob outro ângulo (o que, muitas vezes, faz toda a diferença). Mas criar não dá só este sentimento de insegurança branda. Dá também, e ao mesmo tempo é resultado disso, um sentimento de arrojo, impetuoso e vibrante. Faz com que a gente se sinta vivo, pulsando, com sangue nas veias.
Me interesso, como os que me leem sabem, por temas e problemáticas psicológicas. Pois tenho muita pena dos depressivos. Não porque os ache coitados, não se trata disso. Acho que, hoje em dia, temos meios de tratamento bastante viáveis e ao alcance de todos. Isto sem falar na indústria farmacêutica, que está produzindo milhões de comprimidos de fluoxetina. Mas tenho pena dos depressivos porque eles, normalmente, não conseguem enxergar a riqueza do mundo. A riqueza de uma vida em cores, de uma vida impossível de ser controlada na sua totalidade, de uma vida muitas vezes imperfeita e, inclusive, dolorida (quem já não teve perdas importantes?). O depressivo enxerga a vida em preto e branco, zero e um. Não compreendo uma pessoa conseguir viver uma existência toda desta forma. É menos de meia vida.
Não faço a apologia de uma vida ensandencida, pois todos nós precisamos ser centrados para muitas coisas. Não dá pra levar a vida louca vida pirando, rolando de bar em bar, como dizia Cazuza. Legal como figura de linguagem, mas para a vida real, estou fora. O que precisamos é de uma vida arejada, colorida, aberta, porosa, em transformação e em evolução. Digo que viverei 140 anos. Não sei de onde tirei, mas estou convicto. Só que, se tudo der certo, ao final e ao cabo, terei vivido não meus 140 anos, mas séculos e séculos de uma existência vibrante.

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