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Alma de índio em questão

  Paulo José e Matheus Nachtergaele   Esta crônica refere-se a uma discussão da qual eu não poderia participar, pois nunca ninguém me provou …

 

Paulo José e Matheus Nachtergaele

 

Esta crônica refere-se a uma discussão da qual eu não poderia participar, pois nunca ninguém me provou a existência de alma neste ou noutro mundo.

Por tratar-se de assunto cristão, vou rezar essa missa pela ordem.

José Monserrat Filho, há semanas, ligou-me de Lisboa onde representava o governo num encontro cultural. Numa conversa com uma participante portuguesa (que eu supunha espanhola), lembrou-se que há 10 anos Paulo José produziu e atuou no espetáculo A Controvérsia, de Jean-Claude Carrière. Ela se interessou pela história, e o Mon prometeu tentar localizar e enviar o texto.

Bola comigo, Paulo José em São Paulo, Mirian Cavour, a secretária, desencavou o solicitado e, via motoboy, mandou-me a versão teatral traduzida por Paulo Tienfenthaler com texto final de Pedro Bial. Missão cumprida.

A história, conforme o texto, começa em 1550, na cidade espanhola de Valladolid, onde o cardeal Roncieri, a mando do Papa, preside uma discussão entre o missionário Bartolomeu de Las Casas e o teólogo Juan Ginés de Sepúlveda: índio tem alma?

Enquanto o dominicano Las Casas, um humanista defensor da igualdade entre os homens que estivera na América e fora testemunha das atrocidades contra os colonizados, defendia a condição humana dos índios, o filósofo Sepúlveda pregava o domínio dos mais fracos pelos mais fortes, conforme ensina a História, na visão dele. (Inda que incômodo, não há como discordar quanto à preponderância da força na história da humanidade).

Por trás da discussão, o objetivo: a existência da alma do índio exigiria a catequese da população aborígene das colônias espanholas nas Américas ou, caso contrário, os “descobertos” não seriam ocupação da Igreja.

Jean-Claude Carrière é um premiado roteirista, escritor, diretor e ator francês. Recebeu um Oscar pelo seu roteiro adaptado – A Insustentável leveza do ser – e outro pelo seu filme curta-metragem Hereux anniversaire. Participou de quase toda a obra do cineasta surrealista Buñuel e deu forma literária a autobiografia do mesmo. Como Carrière e eu temos a mesma idade e ele foi prolífico, sua biografia não cabe aqui.

Carrière, ao conhecer essa história de Valladolid, soube também que o debate, transcrito para o latim, ainda existia. Foi à luta e escreveu La controverse de Valladolid, um romance de estrutura teatral, onde ficção e história se misturam e ele opõe o humanismo e a razão contra a intolerância. Em 1992, nos 500 anos da descoberta da América, o livro vira filme com Jean-Louis Trintignant no papel de Sepúlveda.

Em 2000, nos 500 anos da descoberta do Brasil, Paulo José montou, no Teatro Glória, uma versão teatral de A Controvérsia, com ele no papel do cardeal Roncieri, Matheus Nachtergaele como Las Casas e Otávio Augusto como Sepúlveda.

Em 2003, na tradução de André Viana e Antônio Carlos Viana, o romance A Controvérsia ganha edição brasileira da Cia. das Letras.

Cabe-me, agora, leitor, excluir o que é ficção nessa obra de Carrière.

O cardeal Roncieri é personagem inventado, não consta que o Papa da vez, Paulo II, tenha algo com o assunto.

O rei Carlos V, da Espanha, motivado pela discussão epistolar entre Sepúlveda e Las Casas, sabedor das atrocidades testemunhadas e narradas por este, promoveu em agosto de 1550 um debate entre eles na presença de um júri, cujos membros estão historicamente nomeados.  Não havendo uma decisão, em janeiro do ano seguinte novo debate, nova junta e tudo acaba sem uma sentença.

De qualquer forma, duas das mais adiantadas civilizações da época – asteca e inca – já haviam sido destruídas pela barbárie espanhola. No caso, os genocidas anteriores a Hitler foram, respectivamente, Cortez e Pizarro.

Os argumentos dos debatedores estão documentados e eu creio, inclusive, que no livro de Carrièri haja trechos de Las Casas escritos anteriormente à controvérsia ao vivo.

Pronto, entreguei o que sei sobre essa instigante discussão em tempos da dominação na América e da também terrível Inquisição da Espanha.

Só não quero que neste Brasil, com cerca de apenas 0,5% restantes de população indígena, algum desalmado me pergunte se índio tem alma.

Inté.

Vitrine, louvando a  paciência do amigo Gustavo Borja Lopes

Mario,

compreendo a falta de espaço… Aumentou o suspense em torno d’alma do índio!

Abração, Gustavo, Rio

Autor

Mario de Almeida

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