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Rebolation das palavras

A gente rebola para escrever uma crônica por semana, pergunte para os outros cronistas. Quando escrevi a palavra “rebola”, lembrei de todas as palavras …

A gente rebola para escrever uma crônica por semana, pergunte para os outros cronistas. Quando escrevi a palavra “rebola”, lembrei de todas as palavras que começam com “re”, e o quanto elas tomam significados curiosos, ou até mesmo revelam conteúdos estranhos. Por exemplo, quando algo respinga, boa coisa não é. A coisa estourou e respingou em muita gente. Já remarcação, é sempre sacanagem com os preços. E quando alguém repensa: esta palavra não passa de eufemismo. Para dizer que o fulano, ou a ciclana, quebrou a palavra, voltou atrás, rompeu um acordo. Caso você clama, e não lhe dão ouvidos, óbvio, aí você reclama, é justo. E quando um gay volta a ser hétero, depois tem uma recaída, e volta a ser gay? Temos ali um refresco. Há quem goste. E o que me diz de quem requenta? Requenta notícia, político que requenta denúncia, é igual a café requentado, ou seja, é intragável. Já o obeso regula quando está na mesa para controlar sua compulsão de comer.

Mas, quem retruca, no meu modesto entender, não tem convicção de nada. Não revida, não oferece réplica, não retalha. Está por baixo, apenas retruca. E quando algo, ou alguém, está muito bem bem guardado, está resguardado. Está recolhido em um lugar como um recôndito. Côndito já bastaria para ser bem escondido, bem oculto, mas recôndito mata a pau. Assim como temos treinadores que jogam na tranca, jogo feio, chamam os adversários para dentro da sua área. Não contente, têm os que jogam na retranca, aí sim, estes têm que ir treinar na Bósnia-Herzegovina, ou na Ucrânia, lugar de retranqueiros.

Já o repuxo quer te matar. Só puxar, para ele, não tá bom. Ele quer te repuxar para as profundezas, para as águas revoltas. Aí, uma onda rebenta ( uma quantidade absurda de água benta) e te devolve para a praia.

Temos também uma circunstância dramática, de natureza íntima.

O sujeito está na praia, vê um par de peitos, perfeitos, à sua frente.

Ela caminha com aquele ar de quem não tem peito nem bunda, e que ninguém está olhando. O cara se descontrola e estica a mão para tocar naqueles jardins suspensos da Babilônia, mas na última hora não o faz. Sim, claro, ficou com… reseio. Reseio não é receio. É outra coisa que até agora não me ocorreu exatamente o quê. Só sei que está relacionado com o seio, do mesmo modo que a palavra respeito.

E se pugnante já é um troço nojento, imagina se for repugnante.

E tem time tão ruim que não basta torcer, é preciso retorcer. Do mesmo modo que a pirâmide, de tão grande, retumba. Outra vez dei um “negrito” na palavra para entregar logo o trocadilho infame e te poupar tempo e neurônios, no fundo, com receio que você se revolte. Mas, bem mais no fundo, é mentira. Eu quero mesmo é bancar o engraçadinho, o cara que recria, que renasce a cada crônica, que  te reconforta. Mas, bem no fundo, isso é pura retórica. O que eu quero mesmo é ressurgir resplandescente, repleto e recauchutado, para ser reconduzido, sem ressalvas, nem restrições, nos braços do leitor, tudo revestido com reverências. Não sei bem para onde, mas, ser reconduzido num reboliço, refulgente, ao som de reco-recos, quando não resvala, é revigorante, salvo uma reviravolta, um refugar.  Havendo, repica e recrusdesce. Dali para o resbostalho é só um rebote. Acho melhor eu renunciar.

Autor

Paulo Tiaraju

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