Tire a sua dor do meu caminho
que eu quero passar com o meu sorriso.
Estou alegre.
Desisto de procurar um assunto para esta crônica, festeje-se a alegria. Estar alegre, sem nenhum motivo especial, não é notícia para ser dividida?
Acorda, Mario, o motivo especial é hoje, domingo, outono, céu azul sem nuvens. E aquela luz que avisa os distraídos que é outono. A temperatura esqueceu que é carioca, descansa da crueldade do calor e, longe do frio, aquece as pessoas com delicada generosidade.
Neste domingo, quando chegamos para tomar o elevador no nosso edifício de 22 andares, ele nos esperava. Comentei com a minha mulher que é hábito comum reclamar quando, à cata de alguma coisa, entre muitas coisas, a procurada é uma das últimas a ser encontrada. Comemorar o fato de encontrá-la entre as primeiras não é hábito.
Não faz muito tempo que me ensinei a comemorar as mínimas alegrias.
Eu tinha uns 12 anos quando me caiu nas mãos um exemplar de Poliana. Tempos depois já aprendera que Pollyanna, da norte-americana Eleanor Porter, lançado em 1913, estourou como sucesso no mundo inteiro, ganhou o cinema mudo e depois o falado, teve sequências e é um clássico da literatura infanto-juvenil.
Poliana difundiu o “Jogo do Contente” que, em síntese, é transformar limão em limonada. Esse jogo foi minha primeira lição de dialética: quando nasce o pinto, morre o ovo.
Anos depois, quando me debruçava sobre os livros de e sobre teatro, o também norte-americano Thornton Wilder deu-me uma das mais preciosas lições de vida, através da peça Nossa Cidade.
A protagonista, Emily, morta muito jovem, pede ao “condutor” (deus ex machina) do espetáculo para olhar um dia comum na sua cidade. Satisfeita em seu desejo, pergunta (citado de memória):
– Será que ninguém percebe o que há de maravilhoso num dia comum?
– Os santos e os profetas, às vezes.
Não sou profeta, mas a minha peça O Despacho estava em cartaz, em 1961, quando aconteceu o que ela previa: Jânio renunciou; respondendo a uma pergunta, em 1964, calculei que o golpe iria custar à nação 20 anos e, inda que não jogue quase nunca no bicho, acertei muitas vezes na centena 312.
Santo nunca fui, nem por exceção, mas jamais um carrinho passa e o bebê me sorri sem que o inesperado não se insira entre a beleza do cotidiano.
Alarido de crianças vindo do algures, brincando num fim de tarde, é comemorado como um dia a mais – e iluminado – que ganhei de vida.
O dia a dia está, esteve no passado e estará no futuro e o resultado não poderá ser conhecido através de uma máquina de somar. O resultado quem faz é a gente.
Desculpe-me se me escapou uma tentativa de ajuda.
Apesar de estar de cara limpa e sem a lua que só virá mais tarde, a sétima face do poema de Drummond, mais a luz de outono me pegaram em cheio:
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Para aqueles que carregam tristezas, deixo os primeiros versos de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha, em O sorriso e a flor:
Tire o seu sorriso do meu caminho
Que eu quero passar com a minha dor…
Inté.
PS. Esta crônica não havia ainda sido enviada quando recebi do Antônio Abujamra mais uma prova da nossa recíproca empatia:
O dedo aponta a lua. O sábio olha a lua. O tolo olha o dedo (provérbio zen).
P.S. 2 Junto com a homenagem a Leônidas da Silva – o Diamante Negro – inventor da “bicicleta” na Copa de 1938, e a 11 macacos campeões mundiais de futebol, vão aí para o branquelo de merda, o racista Danilo, do Palmeiras, um monte de feno e votos de boa digestão: Brito, Cafu, Dida, Didi, Djalma Santos, Gilberto Silva, Jairzinho, Júnior, Paulo César Caju, Pelé e Ronaldo Gaúcho.
Vitrine (sobre a crônica anterior)
Ao pé da crônica, o comentário: Fantástico, nada a ver com a imbecilidade da Globo. Gosto muito dos seus fragmentos. Tito Oliveira – Rio de Janeiro
Vitrine família
Mário, querido irmão, todas as crônicas que leio semanalmente me fazem um bem!!!!!!!! Mas algumas eu sinto vontade de repetir, repetir, repetir o que já disse algumas tantas vezes: é muito bom ler você! Um abraço cearense apertado da cunhada. Lúcia, funcionária do Estado. Fortaleza.
Mario querido: Uma das crônicas mais densas e instigantes dos últimos tempos. Um convite – ou melhor, um desafio – para uma reflexão sobre a Vida que vivemos: Nietzsche, indo além de seu mestre Schopenhauer, nos legou um material excelente a respeito. Ainda ontem, ao encontrar, por acaso, numa esquina um antigo colega, Antônio Pedro Schlindwein, ouvi uma observação acerca deste tema por você abordado: “Você é o que é mais as circunstâncias”. Ou seja, a força do contingente! Um grande e fraternal abraço do Francisco Cunha. Cunhado, engenheiro agrônomo e professor. Florianópolis.
Mais uma vez digo que gostei muito da sua crônica. Dry. Aurea, a mulher.

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