“… eu me sinto triste; mas tomar consciência de meu desgosto é colocá-lo como um objeto à distância de mim. Pois o eu que diz ‘estou triste’ não é mais, de modo algum, o eu que está triste. Assim o homem está por sua consciência, sempre além de si mesmo. Eis o sentido do ‘ex-istencialismo’ (A Náusea, J.P. Sartre)
Abriu os olhos e percebeu através da persiana que o dia também se preparava para acordar de vez.
Foi, ainda estremunhado, para a pia, dando-se conta que tivera uma noite de sonhos agitados. Achou que uma ducha fria espantaria os resquícios do mundo onírico do qual acabara de sair.
Enquanto esfregava com vigor a toalha no corpo que pingava, deu-se conta que, em vez de espantar a memória daquela noite, seria melhor resgatar o que fosse possível.
Quem, ou o que, seria aquele senhor com mais de 80 anos, robusto, corpulento, faces rosadas, olhar severo, reprodução humana de um leão que vira num safári e explicava o sentido de realeza que emprestavam ao animal?
Enquanto tentava descobrir na sua realidade a identidade daquele tipo de inquisidor, lembrou-se do próprio que, no sonho, inquiria:
– Quem é você?
– Não sei quem sou, mas acho que sou um pouco do que me fiz e muito do que fizeram de mim.
– Isso é uma desculpa?
– Não, apenas acho que, como a maioria, sou um ser contingente.
– Você não é quem queria ser?
– Quando acordei do meu sonho de ser, eu já era o que era, mas faz tanto tempo que eu nem sei o que queria.
– Explique-se.
– Muitas encruzilhadas e nunca saber qual o melhor caminho não é explicação, são ciladas. Mas caminhar é compulsão.
– Você se acha aquele que vai ao fundo das coisas?
– Não, sou uma vasta geografia quase sempre plana. Sou raso, profundos foram os meus mestres.
– Afetos?
– Fortuna que aumenta quanto mais se gasta.
– Rancores?
– Ódios. Um cofre de ódios. São joias que, usadas em situações de gala, gratificam a paciência e a espera (arbítrio não se esquece ou se perdoa).
– Amor?
– Um moto contínuo que se enlouquece em alumbramentos e encantamentos. Por tanto amar, divido as rugas com quem compartilhei.
– Satisfeito?
– Não sei o que queria ser, mas sou. E este já escreveu, mesmo com a carência do engenho e arte:
“O que preciso,
invento.
O que não,
deixo para os outros.”
(Pausa)
– Mas, afinal, meu inquisidor, quem é você?
(Sorrisos, quase risos)
– Ora, sou você mesmo se sonhando.
Inté.
Vitrine (sobre a crônica anterior)
Grato, Mario. Saudades dos anos 40 e 50. Abs. Eng. José Carlos Pellegrino, São Paulo.
Querido Mario: Sua crônica embaralhada é muito lúcida quanto aos personagens e seus espaços, notadamente o Largo Paissandu e seu refundador, o nosso querido Casimiro Pinto Neto, boêmio, galante e simpático, com quem convivi nos tempos da Rádio e TV Record, nos idos de 1960. Sugiro que a próxima crônica que fale do Paissandu também inclua o Mário de Andrade, assíduo frequentador do local com fins evidentemente pecaminosos, conforme se pode ler de alguns de seus escritos que não consigo agora localizar em minha memória. Um grande abraço. Modesto Carvalhosa, advogado, ex-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico – CONDEFAAT, São Paulo.
Formidável, Mario! As usual, texto arguto e muito gostoso de ler. Meneghetti, o “finório meliante”, por você muito bem caracterizado, acaba sendo (por adoção) o nosso Raffles, criado em 1899 pelo inglês E.W. Hornung, ou ainda o famoso Arséne Lupin, o “ladrão de casaca”, cujas aventuras começaram a ser publicadas em 1907 pelo francês Maurice Leblanc. Ou, quem sabe, o Fantomas… Concorda? Abração! Prof. Dr. Carlos Eduardo Cunha, Florianópolis.

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