Colunas

Os miseráveis do morro Bumba

“…o mundo do estranhamento, do absurdo visceral,das coisas alarmantes surgidas no escuro e no silêncio,como corpos empilhados sob uma chuva calma e triste.E parentes …

“…o mundo do estranhamento, do absurdo visceral,

das coisas alarmantes surgidas no escuro e no silêncio,

como corpos empilhados sob uma chuva calma e triste.

E parentes que olham para os cadáveres sem saber chorar.”

Por que estou escrevendo sobre isso se a imprensa já esgotou este assunto?

Por que revirar mais lixo, mais lama, mais dor?  Porque tudo isso faz lembrar um pesadelo que a gente luta para acordar e não consegue.

É terrível demais para virar a página, sem, pelo menos, tentar elaborar. Decidi escrever porque, ao assistir às reportagens pela TV, percebi que muitos dos parentes das vítimas gostariam de chorar na frente das câmeras, mas não conseguiram chorar, então simularam um pranto sem lágrimas. Passavam as costas das mãos nos olhos secos e balbuciavam uma queixa sem volume e sem vontade. A vontade morreu junto com os parentes.

Nas camadas mais miseráveis da população, geralmente, as pessoas não choram mais. Suas lágrimas estão represadas por uma couraça resistente às emoções. Viver na miséria petrifica os corações, desertifica as almas e embrutece as criaturas. Um homem disse para o repórter: “Perdi tudo, a minha família está lá embaixo da terra, perdi a casa, eu não tenho mais nada”. Mas ele disse isso com o olhar perdido, ausente. Sim, estava em estado de choque, pode ser, mas vinha morrendo um pouco por dia, já vivia em estado de choque lá no morro do aterro sanitário, em cima do lixão. Estou furioso, e triste com mais esta tragédia inaceitável, porque era previsível.

Bumba devia ser só um nome de dança, de alegria, deveria ter ficado lá, brincando com o boi Bonito. Bumba não deveria surgir no cenário nacional como um cemitério e suas camadas de lama, lixo e cadáveres. O Brasil não precisa contratar roteiristas de ficção, não precisa de autores surrealistas, a tragédia do Morro Bumba é a mais perfeita tradução das nossas administrações tropicalistas e surreais. O Haiti é aqui. Não há forma mais degradante e mais miserável de morrer do que ser soterrado por toneladas de lama e lixo… na cama, no quarto de dormir.

Antes mesmo de morrerem, aquelas pessoas já recebiam tratamento de lixo humano. As autoridades sabiam do risco, sabiam da emanação dos gases tóxicos. Aliás, todos os demais segmentos da sociedade brasileira se tornaram indiferentes aos brasileiros miseráveis. E quando o Estado retira uma fração do erário público e destina uma bolsa para dar de comer para esta população que vive na pobreza encardida, não falta classe média e engomadinhos da elite muquirana para baixar o cassete no governo e dizer que ele está dando dinheiro para vagabundo. Não vou dizer o que penso de gente assim, não, não vou dizer.

Em vez disso, quero conclamar Kafka para prefeito de Niterói, Jorge Luiz Borges para a Secretaria dos Pesadelos, Cortázar para Secretário das Almas Penadas do Lixão Sanitário, Saramago para Secretaria das Coisas Inacreditáveis, e Gabriel García Márquez para a Secretaria dos Quinhentos Anos de Solidão,  todos eles escritores que lidam com o realismo fantástico, com o mundo do estranhamento, do absurdo visceral, das coisas alarmantes surgidas no escuro e no silêncio, como corpos empilhados sob uma chuva calma e triste. E parentes que olham para os cadáveres e não sabem chorar.

Autor

Paulo Tiaraju

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.