Numa noite de abril de 1958, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, as cortinas abriam-se para um espetáculo de poesia nunca visto pelo público e muito menos pelos seus protagonistas.
Duas atrizes e quatro atores, todos jovens, davam início a um espetáculo onde Poetas & Poemas brasileiros eram apresentados num trabalho coletivo, no qual vozes, gestos, movimentos, luzes e algumas canções eram apresentados como um balé falado.
Eu, criador e diretor do espetáculo, acabei – por um imprevisto – entrando também como ator, no lugar de um outro impossibilitado por doença. Eu tinha 26 anos e era o mais idoso da trupe. Num espetáculo onde os seis jovens participavam de quase todos os poemas, escolhi um soneto do gaúcho Mario Quintana, apropriado ao que ia acontecer e uma homenagem pessoal àquela terra que recebia com fidalguia um paulista que chegara do Rio para “fazer artes”.
Por ser o inventor daquela história, achei-me na obrigação de dizer sozinho, ao lado dos cinco companheiros, os 14 versos do soneto. E mandei:
Eu faço versos como os saltimbancos desconjuntam os ossos doloridos…
Em seguida, nós seis apresentamos “A Partida”, de Augusto Frederico, que esclarecia a proposta cênica, e cujos versos finais são:
E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão de compreensão absoluta.
O São Pedro lotado aplaudiu com tal generosidade e entusiasmo que percebemos, de imediato, que o formato, a proposta inédita, emplacara.
Poetas & Poemas foi um completo sucesso artístico e financeiro, e o Teatro de Comédia, do Glênio Peres, que patrocinara minha segunda ida a Porto Alegre, teve recursos para montar Romeu e Julieta, com a participação, inclusive, nos bastidores, ao vivo, de um coral de câmara.
Anos depois, já amigo de Mario Quintana, ele me confessou que assistiu à estreia, sentado na última fila, “sofrendo” as palavras dele ditas por outro.
O sucesso do espetáculo atravessou fronteiras e fomos a Montevidéu, cujas apresentações fizeram parte das comemorações da Semana da Pátria brasileira no país vizinho.
No trem de volta, fundou-se o Teatro de Equipe sobre o qual, em 2001, a Feira do Livro organizou o painel Teatro de Equipe – Casa de Cultura de Porto Alegre. Naquela oportunidade, nasceu a minha parceria com Rafael Guimaraens, e o livro Trem de Volta – Teatro de Equipe foi lançado em 2003 no Theatro São Pedro, incluindo uma performance com a participação dos outros três fundadores do Equipe: Milton Mattos, Paulo César Peréio e Paulo José, além das atrizes Ivette Brandalise, Marlene Ruperti, Nilda Maria e os antigos companheiros Armando Ferreira Filho e Luiz Carlos Maciel.
Ano seguinte, fomos todos para o auditório Glênio Peres (jornalista, ator e depois vereador), na Câmara Municipal, receber o prêmio Qorpo Santo pela história escrita pelo Equipe na cultura da cidade.
Mesmo passados 52 anos, o soneto do Quintana continua impregnado na minha memória como um estigma positivo (oxímoro?). A preocupação do poeta nos versos “mas que vos dar de novo e de imprevisto (?)” assaltou-me ao sentar-me para escrever o que estou escrevendo.
Creio que o novo que habitava o poeta não é preocupação dos cronistas que, geralmente, opinam sobre fatos que acontecem. Passo os olhos no jornal nosso de cada dia e vejo que a emenda Ibsen sobre os royalties do petróleo continuam alimentando notícias e opiniões as mais diversas. Eu tinha as minhas, mas o presidente do STJ, Marco Aurélio de Mello, já as derrubou com uma opinião indiscutível: é inconstitucional. Para mim, fim de papo.
Quase não vejo TV aberta, mas impossível não ver que o julgamento do assassinato de uma menina, em São Paulo, ocupa a pauta dos veículos de massa. Qualquer crime acontecido acima das faixas D e C da população, com um pouquinho de pimenta, vira prato cheio para uma massa faminta de tragédia fora dos palcos. E, mesmo sem pão, dê-lhe circo!
Hoje, já sei que o casal criminoso foi condenado e – como não são políticos – vão pagar.
No varejo, a crueldade quase sempre me choca mais, pois no atacado tenho notícias de um Dilúvio encomendado no princípio dos tempos; de Átila, no século V; da Santa Inquisição na Idade Média e de Hitler no século 20.
A geografia minimiza ou amplia a reação face a uma tragédia: um terremoto na Ásia mobiliza menos que um atropelamento na rua da gente.
Inda que esses fatos sirvam de matéria para numerosos cronistas, não é nesse tipo de jornalismo que vou encontrar alguma coisa que justifique os minutos perdidos pelo leitor nesta minha coluna.
“Eu sei chorar, eu sei sofrer…” também está no citado soneto do Quintana. Já desisti de dividir com os leitores o sofrimento por uma cidadania aviltada todos os dias e todo mundo sabe a que me refiro. Desisti de avivar feridas.
E o imprevisto? Acontece sempre, é claro, e, de tão pródigo, quando não acontece, é imprevisto.
Para o poeta, o imprevisto pode gerar um instante mágico e virar poema, como A Flor e a Náusea, de Drummond:
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Já o imprevisto, ou seu parente, o inusitado, pode gerar um fato ainda mais inusitado, como aquele do Rubem Braga haver visto uma borboleta amarela, no Centro do Rio, e haver escrito três ótimas, magníficas crônicas!
Ao começar a escrever este texto, lembrei-me de Drummond, do velho Braga e que o próprio Quintana, ao acusar-se, alertou-me: “Mas que tédio, o coro dos amigos clama”.
Sei que juntei apenas algumas humildes recordações, mas se você entrar agora naquele coro do tédio, fico por aqui com a certeza que não preciso de inimigos.
Inté.
Leitores na Vitrine (sobre a última crônica)
Grato, Mario.
Aquela página (ditadura) já foi virada, há quase meio século.
E a do Lula, PT et caterva? Quando ???
Abs. Engenheiro José Carlos Pellegrino, São Paulo, SP.
Goebbels… o pai de todos os publicitários… rs. Chacotas à parte, sempre bom te ler. Abraçares, GG. Guto Graça, publicitário, Rio.
Mário, sua crônica aguçou minha curiosidade! Quem teria sido o Goebbels tupiniquim que “cometeu” o famigerado adesivo? Lembro-me que existia a AERP, responsável pela propaganda da ditadura. E eles até acertavam de vez em quando (não podemos negar que o Sugismundo foi sucesso, especialmente junto à criançada). Mas o maldito adesivo é um exemplo clássico de infelicidade. Consegue sintetizar tudo de ruim daquele período. Arrogância, violência, intolerância, burrice, e, principalmente, um mau-gosto estratosférico. Do ponto de vista gráfico, acredito que não exista nada pior. Taí, gostaria de saber o autor da proeza!
Gustavo:
A AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas – foi criada no final do governo Costa e Silva, mas o adesivo é de 1969, anos negros da ditadura, cujo carrasco de plantão era o Médici. O adesivo deve ser da gestão do Coronel Otávio Costa, exceção não-sanguinária do poder que, inclusive, defendia outras soluções que não o assassinato dos opositores sublevados. Um dos principais assistentes do Coronel foi o Carlos Alberto Rabaça, um dos roteiristas do Globo Profissões, do qual, inda que na Fundação Roberto Marinho, fui o diretor-geral por mais de 100 programas. Abração, Mario.
Mario de Almeida, agradeço muito tua memória e existência.
Precisamos recordar e revolver o que não se pode esquecer do passado recente.
Saber que estás vivendo com saúde e espírito elevado e que te divertes recordando esses episódios é uma delícia. Abração, Eloí Flores,
ULBRA – Diretor Campus Guaíba, Porto Alegre, RS.

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