Passei pela vida aprendendo, mas só sou o que fiz.
(M.A.)
1985, 15 de janeiro. Eleições indiretas, e o Congresso Nacional dá uma surra em Paulo Maluf, elegendo Tancredo Neves presidente da República e o Sarney, vice.
14 de março, véspera da posse, Tancredo é internado em estado grave. Sarney, dia seguinte, por ser o vice eleito, assume a presidência. O general-ditador Figueiredo veste o pijama e lá se vão quase 21 anos do regime militar de exceção. Em abril, morre Tancredo, e Sarney efetiva-se como presidente.
Encerrado o período mais trágico de toda a nossa história, surgiu-me a ideia de escrever um livro de ficção totalmente inspirado em fatos.
Saí da Fundação Roberto Marinho por meio de um acordo, comecei a escrever o livro, a editar revistas comemorativas e a construir uma casa. Quando já havia umas 60 páginas datilografadas (!), dei-me conta que, por ser um livro datado, exigia uma imediata identificação de oportunidade, antes que a memória pública apagasse fatos do período.
Atropelado pela balbúrdia econômica e financeira do governo Sarney, percebi que meu livro poderia virar promissória de cigano, ou seja, irresgatável. Desisti.
Semana passada abri uma pasta – Brazil, PQP! – e reli algumas páginas. Esta crônica é sobre aquele livro que não houve.
Três protagonistas dividem a narrativa. Pacheco, um capitão da Aeronáutica, democrata de esquerda cassado logo depois do golpe; Andrade, engenheiro agrônomo cassado quando vice-reitor de uma faculdade gaúcha; e Bittencourt, um ex-dirigente do PCdoB, preso, torturado e exilado que, no exílio, sonha sempre com personagens do poder. Os sonhos são de revanchismo virulento: flagelos com ânus, pênis, escrotos e um desfile de escatologia são o cardápio onírico dele. Bittencourt sempre acorda rindo e feliz.
Vão aí alguns trechos, mas vou explicar antes o que há de factual por trás de cada um deles.
Golpe oficializado, Castello Branco, em 15 de abril de 1964, toma posse como presidente (ditador) e vai assinando listas e listas de cassados, principalmente políticos, educadores e militares.
“Pacheco lê a manchete no Correio da Manhã: ‘Castello cassa mais 72 civis e militares’. Ao bater com seu nome, o jornal cai-lhe das mãos, a cadeira de balanço fica imóvel e apenas o tic-tac do relógio de pêndulo quebra o silêncio… olhar perdido na parede, sem ver a parede, sem ouvir o tic-tac, sem noção de tempo… De repente, levanta-se e dá um grito. Um grito tão forte que ele mesmo, Pacheco, assusta-se. O apartamento em silêncio, sem mais ninguém, animou-se, como se, de súbito, tivesse recuperado a vida.”
Entre as centenas de cassações iniciais, um grande número era de educadores. Entre eles, um professor e vice-reitor da Faculdade de Agronomia de Passo Fundo, militante do PCB daquela cidade gaúcha, cujo secretário-geral era um barbeiro.
“Sábado, manhã de sol em Ipanema, deitado nas areias do Arpoador, bem em frente ao Castelinho, Andrade, agora residente em São Paulo, responde a Tarso, seu amigo também gaúcho: – Pois é, estou quase rico. Mais um golpe de direita e fico milionário. Tarso acha aquilo absurdamente engraçado, pois conhecera Andrade, brilhante inteligência das esquerdas, como professor em Passo Fundo. O golpe de 1964 jogara Andrade na iniciativa privada e, em pouco mais de ano, em São Paulo, Andrade estava faturando alto. Inteligência e competência, pensava Tarso, transferidas para o lucro. Depois de um mergulho na água gelada, Tarso provocou: – Andrade, essa sua entrada no mundo do dinheiro merece uma comemoração. Vamos tomar um chope? – Um chopes e dois pastel, respondeu Andrade, fazendo gozação com a sua recente condição de paulista.”
Signatário do AI-5 e ministro da Previdência Social, Jarbas Passarinho, defendendo seu ministério, teve uma carta publicada no JB. Enviei, assinada por mim, uma carta pública, exatamente assim:
“Pacheco abriu o Jornal do Brasil na ‘Carta dos Leitores’ e, sorrindo, leu a carta que enviara ao jornal dias antes: ‘Nesta mesma seção, o ministro Jarbas Passarinho, defendendo-se de acusações feitas à Previdência Social, atribuiu a J. P. Sartre a expressão ‘salário do medo’. O ministro acertou na nacionalidade e errou no autor. O livro O Salário do Medo, do francês George Arnaud, foi best-seller no início da década de 50 e adaptado para o cinema por George Clouzot, tendo como intérpretes, entre outros, Yves Montand e a brasileira Vera Clouzot. Acho até que o Arnaud já conhecia a nossa Previdência Social, pois a epígrafe do livro é bastante esclarecedora: ‘A América Latina não existe. Eu sei. Eu estive lá’.”
Em 1969, a Confederação Brasileira de Desportos – CBD – reunia, ainda, todas as modalidades esportivas e, com vistas à Copa do Mundo de Futebol de 1970, seu presidente, João Havelange, já havia contratado João Saldanha como o técnico da Seleção, cujos jogadores eram “as feras do Saldanha”. Fizeram chegar ao técnico que o ditador de plantão, Médici, gostaria que o jogador Dario, o Dadá Maravilha, fosse convocado. A resposta daquele que era conhecido como João Sem Medo foi típica: o presidente escala o Ministério e eu, a Seleção. Zagallo passou a ser o técnico, e os jogadores, as “formiguinhas” dele. Waldyr Amaral e Jorge Cury revezavam-se nas narrações de futebol na Rádio Globo, a líder de audiência. Eis o sonho alusivo:
“Bittencourt liga o radinho de pilhas no momento em que Waldir Amaral grita que o pênalti vai ser batido pelo próprio João Saldanha: Emílio Garrastazu Médici está congelado entre os paus. Corre Saldanha, bate e – incrível – nos joelhos de Garrastazu! A bola vem pra Dadá Maravilha, que enche o pé e – incrível – no ouvido de Garrastazu; a bola volta pra Rivelino que, de canhota, emenda um sem-pulo e – incrível – no saco, no saco do ditador. A bola desaparece no espaço, e Emílio Médici está imóvel, caído no chão, com a boca cheia de formigas, as formiguinhas do Zagallo. Olha o tempo… (sonoplastia) o relógio marrrrrrrrrrca exatamente mais de 5 anos de ditadura…”
Quando o país escapou da ditadura, caiu na incompetência econômica do governo Sarney. Em 27 de fevereiro de 1986, um decreto amputou três zeros do cruzeiro que passou a ser cruzado, cujo plano – entre outras medidas – congelou preços e salários. Instalou-se o caos.
Inté.
Leitores na vitrine (comentários sobre a crônica anterior)
Mario, valeu pela aula de Bob’s! Sempre que sou obrigado a recorrer ao fast-food, opto pelo Bob’s, nunca McDonalds. É questão de gosto mesmo, sem nacionalismo! Quer dizer, com um pouquiiiinho de nacionalismo… Frequentei o Nino, garoto de calças curtas, ao lado do velho Borjalo, Marilu e amigos. Revezando com o francês Le Relais, com as carnes da Carreta e com o despojado Real Astória, Nino era opção nos finais de semana da família. Hoje, quando saio do Sesc com meu filho, a parada obrigatória é no Stambul. O garoto não nega as origens maternas, é alucinado pela gastronomia árabe. Abração,
Gustavo Borja Lopes, Rio.
Caríssimo, li o colunão, num deleite apressado e depois sem pressa. Sem, foi mais acertado. Desde o título, linha a linha, palavra a palavra, nada pode ser lido com pressa, para poder degustar. Olha, tchê, aprendeste a escrever, não? (ler com sotaque regional). A vida é desconectada sim, mas como as linhas da mão, ficam na mesma mão, mesmo vivente.
Boa semana. Vera Veríssimo, Porto Alegre.
Mário,
Harmonia, ah! Harmonia. Com chope de litro – há controvérsias quanto a sua origem, uns dizem que foi o Pinguim da Av. São João, outros, o próprio Harmonia – os jogos de palavras, os desafios de semântica, as competições sobre livros e autores e quem seria capaz de cantar a penúltima canção, mesmo desafinando… Que caldo de cultura para a formação de grande parte dos Caetanistas e para o aprimoramento daqueles que, como tu, já demonstravam talento. Apesar de saudosismo não ser o meu forte, há pessoas, momentos e lugares que deixam saudade. O Harmonia, o Pianista e o Violinista Anciões, a patota inseparável: inesquecíveis.
Com um forte abraço,
Luiz Fernando Di Vernieri, Campinas, SP.
Sobre Lynaldo Uchoa de Medeiros, dono do grupo LUME – corria à boca miúda na CONTAL (construtora do grupo) o seguinte boato: o LUME comprou o ‘buraco’, com financiamento do BANERJ, tendo como avalista o Banco Halles. Como a vida não para, o Halles ‘balançou’ e acabou absorvido (encampado era o termo da época) pelo BANERJ. Diante da cobrança da dívida, responde o Lynaldo ao BANERJ: –Agora, cobra do meu avalista…. Ou seja, do próprio BANERJ…
Roberto Castro, Rio.
Querido Marião, show de memória e de espírito crítico, abração. Monte. José Monserrat, Brasília, DF.

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