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Areias, bundas e utopias

Ir para o litoral norte em janeiro e fevereiro é semelhante a embarcar mais uma vez na incrível máquina do tempo (a mesma que …

Ir para o litoral norte em janeiro e fevereiro é semelhante a embarcar mais uma vez na incrível máquina do tempo (a mesma que nos transporta nos Natais), cujos mecanismos misteriosos nos remetem para o interior de situações vividas e revividas à exaustão. Dois dias no litoral (norte) já é suficiente para despertar o Déjà Vu vertiginoso e nauseante.

Não sei que tipo de cara sou eu que acho barraquinha de praia, gente nas cadeirinhas lendo o jornal, as ondas que vem e que vão, barbados jogando frescobol, a sério, acho tudo isso um saco e de um tédio corrosivo. Os únicos eventos que me tiram do torpor são as peladas. As duas. As de futebol de areia, em que o meu irmão joga na zaga, mas é um atacante letal, e a outra, a que passa no doce balanço, nesta ostentação massacrante dos seus atributos físicos e transcendentais. Não digo do balançar sustentado do que chamaria de seios atônitos, os que nos deixam perplexos. E insatisfeitos, pois não se pode e não se deve olhar abertamente para os seios de uma mulher que passa. Ela percebe a voracidade dos olhares e sente-se constrangida.

Mas, e quanto à bunda? Ah, bom, agora vamos falar um pouco sobre a alegria dos homens. Vou tentar descrever o que vejo no cenário, face à aparição fulminante de uma mulher com sua bunda alegórica. Vejo homens com os olhos saltando das órbitas, vejo o espanto, vejo incredulidade, fascínio, angústia, e até mesmo escuto comentários de fundo religioso, como: “Ai meu Santo Pai”. Ou “Pelamor de Deus”.  Depois, o desconsolo, na certeza de que essas bundas extraordinárias são como as obras de arte do acervo da humanidade: é expressamente proibido tocar. Só podem ser observadas a uma boa distância. Nada mais. Também é proibido fotografar.

Diferentemente da bunda urbana, a da praia é explícita e despudorada. Desaforada até. Sua nudez além da nudez não deixa dúvida, mas reforça em nós, pobres diabos, a convicção de que aquela bunda – dotada de poderes incompreensíveis -, além de balançar no caminho do mar, é transitória, é fugaz como tudo na vida, enfim. Logo irá se esvanecer, como as ilusões dos náufragos, como os delírios dos que andam à deriva pelo deserto. Sempre que passa uma dessas e eu entro nesta espécie de surto existencial que acomete aos homens distraídos, corro e me jogo rapidamente nas águas geladas dos mares gaúchos, agora repletas de águas-­­­vivas.  É tiro e queda.

Autor

Paulo Tiaraju

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