Os sanitários públicos e coletivos da antiguidade greco-romana eram pontos de reunião, e os assuntos políticos eram temas dominantes. Muitos legisladores no Brasil quando em seus locais de trabalho resgatam os velhos costumes. (M.A.)
Atravessava a Praça Serzedelo Correia, em Copacabana, quando viu algo que reluzia ao sol. Abaixou-se e percebeu que aquela coisa redonda, com menos de três centímetros de diâmetro, de cobre ou cor de cobre, inda que totalmente apagada pelo tempo, parecia haver sido uma moeda.
Moeda antiga? Egito? Seu pensamento foi para a Alexandria, origem das primeiras moedas do Ocidente e ao incêndio que destruiu sua biblioteca, com seu acervo de sete séculos de existência e a mais importante da Antiguidade. Já que o pensamento estava à margem do Egeu, a memória navegou pelas ilhas gregas já pisadas, mas as lembranças mais fortes aportaram no lado frontal do litoral grego, em Kudasaki, na Turquia, onde, a menos de 20 km, estão as ruínas de Éfeso, cidade que era grega, foi dominada por diversos povos, inclusive pelos romanos, e hoje, em território turco, é turca mesmo.
Éfeso, com mais de 3000 anos de história, foi, supõe-se, fundada pelos jônicos, seus primeiros habitantes.
Ele já estivera naquela cidade berço de Heráclito (550/48 A.C.), que, juntamente com Mileto e o próprio Éfeso, foram precursores da filosofia ocidental e precederam o movimento socrático.
Quando desembarcara em Atenas, há cerca de 20 anos, já sabia que não poderia ser uma viagem de recreio para o corpo e que a mente receberia uma carga de informações, muitas ausentes dos livros.
Nas ruas, pelas perambulações por sítios históricos e museus, deu para perceber que a longa dominação dos turcos deixou uma herança de ódio no sentimento grego.
A visão que esse povo tem dos ingleses, cujas missões arqueológicas abarrotaram navios com inestimáveis obras de arte, é de que eles são saqueadores. Os fatos que antecederam rigorosas leis em defesa do patrimônio nacional foram legais, mas quem visita o Museu Britânico, em Londres, logo entende o tamanho do ódio grego. Achava ele que os gregos perderam, mas o resto do mundo ganhara, pelo resgate e pelo fato de que em todos os museus da Grã-Bretanha o ingresso é gratuito.
Estar no Teatro Epidaurus, a mais de 100 km de Atenas, um assombro acústico ao ar livre, foi o prêmio mais gratificante pelos seus mais de 10 anos como homem de teatro.
O teatro grego e o Ódeon (teatro romano), na colina abaixo da majestosa Acrópole, em Atenas, permitem distinguir, a olho nu, suas principais diferenças arquitetônicas.
Em Delfos, o templo de Apolo e o Oráculo confirmam a necessidade do ser humano de criar seus mitos e a crendice que até hoje remunera cartomantes e os leitores de búzios.
Entre as muitas ilhas visitadas, Santorini (Santa Irene) é de uma beleza natural tão eloquente que explica como, depois de totalmente desaparecida num furor de vulcão, foi novamente habitada e ganhou o nome de Santa Irene, um pedido direto à Santa para que livrasse a ilha de outra tragédia. Numa viagem de cinco dias num navio, conhecera outras importantes: Rhodes, Mikonos, Creta e Patmos. Nessa última, São João cumpriu o seu exílio.
Quando de sua ida a Kurasaki e na rápida viagem até Éfeso, ele não supunha que ainda iria abarrotar sua bagagem de volta com outros gratificantes conhecimentos.
Sua surpresa começou logo na primeira caminhada onde um teatro, herança dos romanos, além de imponente, estava restaurado.
Para os cristãos, os seis anos nos quais São Paulo pregou em Éfeso, a casa onde consta que viveu e faleceu Maria e onde também morreu São João, além de muitas edificações e referências, são partes de um santuário de culturas diferentes.
O publicitário levou um susto ao ver, gravado no chão, na Rua de Mármore, um outdoor indicando a direção do teatro grego e, ao lado, o desenho de uma mulher e de um coração indicando o caminho direto para o bordel. Riu-se muito quando, apresentado ao ícone dos bordéis deles, um boneco de barro cozido, com um pênis no mínimo com o dobro da média. Brincou com a companheira:
– Sô, na nossa terra esse aí só podia ser de Itu!
O garbo arquitetônico da biblioteca levou-o a uma reflexão sobre a importância da informação e da cultura já naquela época. Herança grega, é claro, com quem o mundo aprendeu Democracia.
O sanitário público – coletivo – reunia a elite masculina e funcionava nos mesmos moldes dos salões de beleza atuais, marcava-se hora, e recortes apropriados numa lâmina de mármore davam passagem à oferenda fecal. No inverno, os escravos encarregados de marcar a hora para os seus amos sentavam-se no “trono” e aqueciam a pedra gelada.
Deu-se conta que caminhara até o Posto 6 da Avenida Atlântida, caminhada que marcara a busca de um assunto para a sua crônica. A provável antiga moeda encontrada mexeu em suas memórias e o assunto fora encontrado! Atravessou a avenida e, no canteiro central, depositou a moeda com carinho, num agradecimento silencioso. (Quem sabe, pensou, se outro cronista não a acha e deixa a memória fluir?) Coincidência demais?
Já não acontecera com ele, filho e neto de dentistas, ser apresentado em Niterói a um dentista com nome absolutamente igual: Mario Coelho Pinto de Almeida?
Inté.
Vitrine dos leitores (sobre a crônica anterior):
Ao pé da coluna Marcia Fernanda Peçanha Martins, de Porto Alegre, escreveu:Mais uma vez – Mario: amei a coluna demais. E, acredite, chorei muito ao lê-la. Talvez porque o relato de relacionamentos que conseguem chegar ao final com maturidade de preservar o respeito e o companheirismo seja, muitas vezes, teoria. Ou porque, assim como a alegria, o sofrimento não está em promoção, mas pode ser sentido a prazo. bjs
Mario, mais uma das tuas para meus arquivos: “Na moldura da ficção, tudo é verdade”. Genial! Abração, Gustavo Borja Lopes – Rio
Mario, sua admirável forma de escrever me coloca lado a lado dos seus personagens. Parece que estou falando e sentindo as mesmas coisas. Ter a honra de receber suas crônicas (publique mais um livro com elas!) é melhor do que um 18 x 0 na bocha. Inté. Bob (Edjobson) – Rio
Tua última coluna ficou de mandar botar moldura e pendurar em parede. Perfeita. Meu coração tilintou. Os comentários são gostosos e a lembrança do Quintana. Tudo. Meu recreio fica leve. Mesmo que carregado de emoção. Esse texto toca fundo no emocional do leitor. Vera Veríssimo – Porto Alegre
Obrigado duas vezes, pela coluna e pela gentileza de ter me enviado. Se não é pedir muito, gostaria de receber sempre as suas crônicas, um abraço, Edimar – Rio
Uma viagem inebriante nas ondas nostálgicas de uma vida bem vivida. Ainda mais ao sabor dos ventos do pensamento trágico, sempre presente na condição humana. É sempre uma delícia ler e reler os seus instigantes ensaios. Um grande abraço do Francisco Cunha – Florianópolis.
Muito bom, Marião. Seu texto está ficando cada vez melhor. Beijo, Monserrat (José Fº) – Brasília
Em Tempo:
Em O Globo de hoje (08.02), o colunista Ricardo Noblat afirma que o governador Arruda, de Brasília, é um idiota imperfeito. Até agora, eu achava que ele era um perfeito idiota.

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