Me inspirei em Gabo (García Marquez) para falar dos demônios que fazem parte da comitiva que acompanha o amor em sua eterna peregrinação, desde o paraíso até os charcos mais remotos e pantanosos.
Se quisesse metaforizar a imagem do amor, descreveria a criatura com três cabeças (todas ocas e cegas), com duas asas poderosas, como as de uma águia. Por isso voa para as alturas etéreas, quando quer. Do pescoço pra baixo, contudo, é um emaranhado de sentimentos, os mais sublimes, misturados com poderosas pulsões sexuais e os mais estapafúrdios desejos de um repertório que não tem mais fim, além das ilusões, é claro.
O amor é assim, multifacetado, balsâmico, ardente, ansiogênico, alegre, raivoso, triste, sereno, poético, encantador, assim como são as pessoas e os seus demônios, muitas vezes sombrias e perversas. Me lembrei do mecânico que deu oito tiros na manicure. Fez de raiva o canalha, louco, retardado. Raiva porque perdeu o poder sobre a mulher. Daqui a poucos anos estará solto.
No século passado, o bolero foi a trilha sonora de amores amaldiçoados, amor do submundo dos corações atormentados, dos juramentos quebrados e e dos rancores; amores envenenados; paixões não correspondidas, e uma irresistível atração pelo trágico, por um prazer de avesso, para chorar noite adentro (pobrezinho, pobrezinha), abandonados e com pena de si mesmos.
Elis Regina cantou junto com Cauby Peixoto (segura este rojão) o Bolero de Satã: “… Você penetrou como sol da manhã, e em nós começou esta angústia, este afã….você despertou a paixão imortal, e malsã, que se enraizou e será meu maldito final, amanhã…” Outro trecho (canta Cauby): “…é a seta do arco da noite sangrando-me agora, são lágrimas, sangue e veneno correndo no meu coração, formando dentro mim este pântano de solidão”. É mole ou quer mais?
Mas, comigo não, violão. Já não sou mais um sonhador e trago uma pedra dentro do peito. (Chico) Ao menor sinal de sentimentos… eu começo a girar junto com o universo, na rotação das formas que se atraem em harmonia e levitação…não sei a quantas andas, querida, neste nosso amor que se alimenta de fome, não sei se um dia ainda seremos felizes. Mas sei que me encerras em ti, assim como eu te guardo sem perguntar porquê. O mistério não dá ouvidos a perguntas impertinentes.
…Onda e amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva
(Carlos Drumond)
Comigo não tem frescura, é assim, na dureza.

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