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Pessoal e intransferível

Quando, ao sair, ia bater a porta, lembrou-se de um colega de trabalho que só se casou pela segunda vez depois de acertar que, …

Quando, ao sair, ia bater a porta, lembrou-se de um colega de trabalho que só se casou pela segunda vez depois de acertar que, numa eventual separação, ele ficaria na casa que iriam morar. E mais: ao sair, ela não poderia bater a porta.

Percebeu que aquela lembrança era uma metáfora inconsciente de que ele poderia não passar de novo por aquela porta na qualidade de morador. Não bateu a porta.

Era uma bela e solar manhã de sábado e, de calção de banho, camisa e sandálias, dirigiu-se para a praia. Na mão, uma “capanga” com dinheiro e chaves. Deixou a bolsa e a camisa num bar de conhecidos e, com as sandálias protegendo os pés da areia e do asfalto que já estavam esquentando, atravessou a avenida.

Copacabana, no Posto 4, por ser pouco mais de nove horas, ainda não estava cheia como estaria, mas a areia quente avisava que o sol não iria brincar com a pele dos turistas menos precavidos. A “turma da casa”, naqueles primeiros trinta dias de verão, já se denunciava pela pele curtida.

Mergulhou. As ondas quebrando nas suas costas eram iguais à pororoca que pipocava na cabeça. Impossível continuar desfrutando o prazer refrescante da água fria. Ambiente e ele eram contradições absurdas e recíprocas, assim como se o vendedor de limãozinho estivesse de fraque ou de casaca. Desistiu.

Uma pequena caminhada e depois, numa cadeira defronte à praia, no bar amigo, começou, sem pressa, a beber um chope.

Um navio na linha do horizonte tinha por destino o que ele desejaria: mudar de geografia. Uma sacudida de ombros foi o aviso – nada de fugas. A fuga, quando não definitiva, ficava infinita. Havia que mudar a situação, nunca a geografia.

Quando ia pedir outro chope, outro aviso chegou mais forte que o anterior – nada de álcool.  Seja o que for, que seja de cara limpa.

Enquanto separava o dinheiro para pagar aquele único chope, também dispensava as tentações de fraqueza e descartava-se de todas as possíveis muletas.

Pegou as chaves e tomou o rumo de casa, já sabendo que ia ao encontro de decisões radicais.

Enquanto caminhava, lembrava-se dos pensamentos durante os últimos goles do chope. Vivia um problema em que ética, respeito e amizade se misturavam, mas não enfraqueciam a necessidade de investir no amanhã.

No comércio dos sentimentos, a alegria de viver nunca é artigo em promoção, inda que se possa pagar a prazo.

Reparou que suas sandálias, obedecendo à mente, começaram a andar bem mais rápido.

No almoço, a comida do restaurante estava ruim. Ela aproveitou a deixa:

– Você não acha que a nossa relação está igual?

– Acho.

– Não é melhor a gente se separar?

Pronto! No carro, de volta do restaurante, o que tinha de ser resolvido com a agora ex-companheira, o que tinha que ser resolvido, já estava.

Como num passe de mágica, por um acordo tácito, nenhuma queixa, nenhuma acusação.  Mais que civilizado, tudo acontecera num nível superior.

Lembrou-se daquela também tarde de sol, há 16 anos, num feriado de verão, quando, depois de um banho de rio, ela e ele deram início ao que pensavam ser apenas uma aventura da estação, mas que o convívio transformara numa grande jornada lítero-sexual, incluindo muito afeto, companheirismo e muitas afinidades.

Em momentos diferentes daquela manhã, tentara desvendar os motivos da relação exigir um ponto final. Fugiu, desde o início, ao comodismo de isentar-se de culpa. Em seguida, descartou a palavra culpa. Os motivos eram vários e de naturezas diversas. A convivência, em vez de equalizar temperamentos e harmonizar identidades – o caráter de cada um –, focava aspectos que nem a gente gosta de admitir para si mesmo.

Se a ditadura, para ele, estava sendo uma contingência nauseabunda do cidadão, fortalecia seu lado existencial. Profissão, fraternidade, artes, livros e sexo eram os veios que a ditadura mais estimulava. O uísque dava sombra à tristeza e abastecia a jornada de quem vivia uma quase divisão de egos.

Para ela, a tragédia instalou-se em casa com a prisão de filho e a detenção de outro. Para finalizar, ela mesmo acabou encarcerada por 30 dias numa cela do Exército.

Passou, por sugestão do advogado, uma temporada indo todos os dias úteis “visitar” o coronel chefe da repressão no Rio. Mexeu com canais importantes da nação e conseguiu que a companheira fosse blindada da sanha bestial dos donos do poder.

Solidariedade existia, é claro, e sempre existiu.

São nesses momentos – achava – que o eu de cada um emerge na sua totalidade.

Ele, independentemente da náusea como cidadão, investia na sua condição humana, empenhava-se em conseguir que um brasileiro saqueado em sua liberdade recebesse grandes gratificações em moedas fortes.

Aí estava o maior fator de desequilíbrio entre eles.

Seu existir dionisíaco não dava chance ao “sentimento trágico da existência” e seu pragmatismo propagava que a verdadeira eternidade é a própria vida: você é eterno enquanto vivo.

Se a vida é trágica, dizia, a própria tragédia, por não permitir esperança, evidencia o caminho a seguir. E citava um provérbio espanhol: viver bem é a maior vingança.

Um sinal fechado desviou sua atenção para a tarde ensolarada e no contraste com a temperatura do ar-condicionado do carro. Em seguida, o carro entrava num túnel.

Acabara de enterrar uma etapa grande e importante de sua vida, mas sem lamentos – não havia tempo perdido naquela história. Assim como os dois haviam inaugurado uma etapa há 16 anos, estavam, agora, inaugurando uma outra. Ritos de passagens.

A claridade da saída do túnel foi aumentando e logo depois a luz explodia forte. Olhou a ex-companheira com carinho, companheiros que foram –tinha certeza – de uma jornada do engrandecimento de ambos. Não houve, de fato, tempo perdido. Apenas estática, ruído na relação. Fim de sintonia.

Aquela passagem pelo túnel deixara uma metáfora, e ele desejou que a luz explodisse logo na vida de ambos.

Inté.

 

P.S. Comecei a escrever esta coluna com “eu” no lugar de “ele”, mas o temor de haver escorregado em algo irreal mudou o pronome e ela passou a ser invenção. Na moldura da ficção, tudo é verdade.

 

Leitores na vitrine

Belezura de coluna, Mario.

Vamos reservar as Greguerias e o La Serna para um dos nossos reencontros aí no Rio. Com certeza, rendem prazerosa tarde de prosa com litros de mineral e bules de cafeína. Abração do admirador aqui.

Fraga (José Guaraci) Porto Alegre

 

Mario, você há muito não me surpreende, pois sempre já espero que algo de especial venha de suas manifestações. Mesmo quando não me disponho a comentários, saiba sempre que há admiração. No mais, é ficar esperando pela próxima…

Aderbal Moura – Rio de Janeiro

Autor na vitrine

Na coluna anterior, Greguerias, por duas vezes, o vocábulo saiu com erro de digitação. (Errar é humano, persistir no erro é burrice). 

Outra mosca: aqui em Coletiva, em junho de 2007, o companheiro Fraga, em sua coluna, escreveu sobre Ramón Gomez de la Serna e a “invenção” de espanhol: greguerias. Inda não concluí se eu estava literalmente viajando ou se “viajei na maionese”.

Mas, por falar em gregueria, que tal esse verso de Mario Quintana num hai-kai?

Os grilos são poetas mortos…

Outro Inté.

Autor

Mario de Almeida

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